domingo, março 22, 2009
Virginia
Não espere que eu me mova, pois já nasci imóvel. Nasci sem choro, co'a goela obstruída, o estômago embrulhado, os olhos paralisados no infinito. Lavo o rosto às seis e trinta da manhã, todos os dias. A água escorre pelo meu pescoço, peitos, ventre - meus olhos fechados e a água escorrendo; eu escorrendo com a água. Poucos momentos são tão preciosos para mim quanto aquele em que eu lavo o rosto. Sinto-me líquida, imagino-me indo embora pelo ralo, aproximo-me com muito amor e dedicação daquilo que me fascina desde o dia do meu nascimento: o fim. Sou louca, meu Deus, sou louca. Mas admiro a minha coragem - quantos têm a impetuosidade de atirar-se no escuro da vida e adorar a morte como quem beija a boca do desconhecido? quantos têm a ousadia de admitir, diante do corpo de Deus, que veio ao mundo para ser uma florzinha murcha nas mãos de um latifundiário? Salivo miséria e não cuspo. Faço questão de saboreá-la como fosse a champagne mais cara do mundo. A miséria borbulha em minha boca, e eu não desejo mais que o direito de ser miseravelmente borbulhante. O que eu sinto não tem explicação. Aproxima-se muito do que chamam de 'vazio', mas ainda não o é. É mais além, mais dentro que o espírito, e no entanto consegue se tornar visível aos olhos de qualquer um - basta que se olhe as cicatrizes em meu braço, a cabeça raspada, o sangue no travesseiro. Passei a vida toda tentando descobrir a minha melhor maneira de morrer. Hoje eu sei que a minha melhor maneira de morrer foi ir vivendo.
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Meu Segredo
Disseram, num sorriso,
que um dia eu seria presa
por excesso de liberdade.
Talvez quisessem dizer
o que agora eu sinto
- a liberdade apaga
a libertação que eu pinto.
Vês em mim ave que beija céu,
mas não minto:
no fundo, sou escrava
da minha própria vadia
e beijo a boca do inimigo.
Também sou água
(Por fora, pareço escorrer;
mas por dentro, apenas pingo).
Meu segredo:
a liberdade, essa mentira,
costuma aprisionar sorrindo.
que um dia eu seria presa
por excesso de liberdade.
Talvez quisessem dizer
o que agora eu sinto
- a liberdade apaga
a libertação que eu pinto.
Vês em mim ave que beija céu,
mas não minto:
no fundo, sou escrava
da minha própria vadia
e beijo a boca do inimigo.
Também sou água
(Por fora, pareço escorrer;
mas por dentro, apenas pingo).
Meu segredo:
a liberdade, essa mentira,
costuma aprisionar sorrindo.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Confissão de uma mulher amada
Compreenda as minhas divagações.
Pois vivo,
co'a liquidez com que vivem as mulheres,
solta em tuas veias.
Cambaleio aqui,
cambaleio ali,
e - malandramente - escapulo de ti:
peço que compreendas as noites
imensas que há em mim.
Compreenda se hoje eu faço
do teu corpo o meu lar,
e amanhã engulo, faminta,
as delícias da fuga
(é que algo sem rosto me apavora toda):
defendo-me trazendo à superfície
o Monstro Da Lagoa;
defendo-me tentando distrair o paladar.
Monto em meu próprio dorso, e vou!
Pois temo ser castigo
e, assim, ser castigada...
Me assombra ser o ser amado
- compreenda: não fujo daquilo que és,
mas daquilo que sou ao teu lado.
Pois vivo,
co'a liquidez com que vivem as mulheres,
solta em tuas veias.
Cambaleio aqui,
cambaleio ali,
e - malandramente - escapulo de ti:
peço que compreendas as noites
imensas que há em mim.
Compreenda se hoje eu faço
do teu corpo o meu lar,
e amanhã engulo, faminta,
as delícias da fuga
(é que algo sem rosto me apavora toda):
defendo-me trazendo à superfície
o Monstro Da Lagoa;
defendo-me tentando distrair o paladar.
Monto em meu próprio dorso, e vou!
Pois temo ser castigo
e, assim, ser castigada...
Me assombra ser o ser amado
- compreenda: não fujo daquilo que és,
mas daquilo que sou ao teu lado.
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Romance
"Aurélia" - não gosto do meu nome. Quando pronunciado de forma rápida e cruel, ouve-se "a orelha". Às vezes eu quero me machucar um pouquinho e o pronuncio de forma rápida e cruel para mim mesma, baixinho. Muitas vezes sou cruel comigo e com os outros, mas muito mais comigo porque, quando faço uma maldade para alguém, eu me machuco também. Então sou duplamente cruel e por isso pareço um gigante mas não passo de uma mosquinha sobrevoando um prato de sopa.
Não gosto do meu nome porque não gosto da minha orelha. Ela é toda feita de um defeito gravíssimo: um pedaço que falta. Sinto-me uma aleijada, confusa por não saber ao certo se devo me consertar para que os outros me enxerguem bonita, ou se devo extrair a beleza da falha e defecar sobre a cabeça dos homens. Intimamente, temo a situação em que alguém me pergunte o meu nome, eu responda (por descuido) de forma rápida e cruel e, involuntariamente, a pessoa olhe para a minha orelha e perceba que ela não está inteira. A minha orelha também sou eu... eu não estou inteira. E são pouquíssimas as pessoas que conseguem enxergar que o aleijão, às vezes, é justamente o que torna a existência completa. O amor, por exemplo, tem disso.
Quando eu era jovem e comecei a perceber que havia em minha beleza algum poder misterioso com os homens, vivi um tórrido romance com um professor velho. Eu nunca fui a mais bela da escola, aquela que todos os garotos desejavam possuir, porque eu nunca quis ser. Eu possuo um tipo de beleza que pode ou não se manifestar: é questão de escolha. E eu nunca escolhi dar o ar de minha graça àqueles garotos mau-cheirosos e sardentos. Então era bom mesmo que eles gastassem seus púberes suores com Cecília e Amélia... assim, sobrava-me tempo e espaço para escolher um alvo e fincá-lo, certeiramente, com minha flecha juvenil. Escolhi o professor velho também porque a minha maior arma não eram os cabelos soltos ou as bochechas coradas de sol - a minha maior arma era mesmo a juventude.
Vou tentar falar desse romance porque assim eu me fortaleço um pouco. Lembrar é coisa sagrada, encontra-se as raízes das falhas, como quando descobrimos novos detalhes cada vez em que assistimos ao mesmo filme. A minha pequena história com o professor não tem nada de novo. Muito pelo contrário: sem perceber, obedece rigorosamente ao clássico e é coisa estagnada, como qualquer lugar-comum. Por isso eu peço, do fundo de minha alma, que não dês tanta importância a estas linhas, Caro Leitor, mas que fiques inteiramente a par das minhas duras entrelinhas.
Ele, o tal professor, era um homem muito bonito. E era imenso, pois havia dedicado longos anos de sua vida à sofisticação. Um intelectual? De maneira alguma. Mas um homem que sabia exatamente como conduzir a própria vida ao declínio. Mesmo as quedas do professor haviam sido arquitetadas da melhor maneira, elegantes, como a poesia Romântica. Dava-me aulas de teologia, sabia de cor os mandamentos de Deus, os pecados capitais, mas o que sabia fazer com mais propriedade era mesmo pecar. E atolava-se numa fama violenta que sobrevoava os corredores, descia as escadarias, corria o pátio, até ganhar a imensidão do jardim do colégio. "Ele adora menininhas", comentavam todos. Mas, de todos, apenas eu tinha no corpo a prova viva de que as especulações eram mesmo verdadeiras. Eu era a verdade, em carne-viva, do professor - eu, que no primeiro dia de aula, aos quinze anos de idade, já o tinha como presa fácil. Sua boca e suas mãos eram iguaizinhas as do meu pai - requisito crucial para que eu o elegesse amante.
Estou com ânsias de vômito... deve ser a boca, as mãos do professor. Sim, ele era muito bonito. Tinha pouco mais de quarenta anos de idade, barba e cabelos acinzentados, pele boa, dentadura pronta para exercer o seu papel . O que nos uniu? Conscientemente, o fato d'eu, na presença dele, entrar em contato com a parte absurda da vida da qual eu ainda era terminantemente proibida de provar. Enquanto ele, na minha presença, entrava em contato com a vida que ele pensava ter deixado escapar por entre os dedos. Superficialmente, era isso: ele me invejava profundamente por eu ser jovem, e eu o invejava por ele ser velho. E foi assim, sem medo e com uma vontade mútua e avassaladora de ser o outro, que nós dois pecamos, em cima da mesinha à qual ele se sentava, todas as manhãs, para falar à turma de desinteressados a importância daquilo que é sagrado.
Aquele colégio ensolarado passou a ser a mais doce arena para o nosso amargo combate. Amávamos tanto quanto odiávamos um ao outro. Eu era a prostituta, o horror do professor, pois fazia questão de não saber disfarçar mesmo nas horas de aula. Insinuava-me toda de forma a atingí-lo e deixá-lo desconcertantemente furioso. Muito furioso. Ao final de tudo, pegava-me com rispidez pelo braço, levava-me a um canto qualquer e dizia-me que eu era louca. E eu era louca. Quando ele dizia "louca...", eu sentia a tonturinha de quem se reconhece num insulto. Era tudo verdade e a verdadeira loucura sempre me encheu de uma espécie de medo alegre.
"Se descobrirem, ele será expulso do cargo", dizia-me as minhas coleguinhas. "Pois que seja!", eu respondia. Eu queria exercitar a brutalidade em mim, acabar com a vida de um professor qualquer. De um barbudo qualquer. De um homem qualquer. Eu sempre fui moça frágil demais, e ser assim, violenta, era uma deliciosa maneira de me proteger dessa fragilidade que tanto me atormentava. Mas, não sabia eu (claro), era também o que a denunciava. E o professor, homem maduro e vivido, logo percebeu que, se quisesse, poderia me desarmar e me deixar nuazinha. Mas, como já era de se imaginar, ele não quis - e, não só não me desarmava, como ainda me ensinava a apertar o gatilho e matar. Foi sua opção continuar sendo deliciosamente perturbado por mim. Além de tudo, ele carregava nos olhos a doçura romântica de quem já havia passado da fase da maldade. Eu vomitava e ele devorava o meu vômito, faminto por qualquer pedaço de coisa que viesse de dentro de mim.
Parte de mim sabia que o espetáculo era sórdido e de inegável baixeza. Na intimidade, lá dentro do meu quarto, eu até lambuzava-me de alguma culpa. Mas a outra parte de mim necessitava tanto empurrar o homem velho ladeira abaixo, que a culpa era mesmo reservada aos momentos mais íntimos e neles ficava, trancafiada a sete chaves. Ninguém podia enxergar-me culpada - apenas eu. Para o mundo eu havia de ser a pequena vítima que caiu nas armadilhas de um barbudo, e tudo o que eu fazia contra ele estaria dentro do meu direito à defesa. Era como se eu atacasse o professor antes que ele me atacasse... certa de que, do contrário, eu seria vencida.
Onde estaria o professor neste tempo de agora? Penso que nele não caberia jamais o tempo de agora. Ou ele não caberia no tempo de agora. O fato é que esse homenzinho de ingênua audácia é grande ou pequeno demais para caber na sujeira do mundo de hoje. Ou então é a sujeira do mundo de hoje que é grande demais para caber naquele corpo magro e desajeitado do professor. Quando ele ria, apertava os olhinhos, assim como o meu pai. E esses olhinhos eram tão bons quanto cruéis comigo, pois seriam capazes das maiores barbaridades para depois, apertados, deixar escapar algo como "foi por amor".
Depois que o meu pai foi embora de casa, deixando minha mãe, eu e minha irmã mais nova sozinhas, entendi o significado de um homem na vida de uma mulher. Não era ele que fazia falta... pelo menos não a carne dele. Era o contexto que dava corpo ao corpo dele - a exalação do seu cheiro masculino inundando a casa de segurança; o carinho pesado que somente a mão de um homem pode oferecer; a barba suja de café, que nos dava a certeza de que estávamos, de fato, diante de um macho. Meu pai foi embora e eu o perdoo porque, mais de uma vez, na tentativa de desculpar-se, ele apertou os olhinhos e deixou escapar algo como "foi por amor". Se ele não tivesse batido a porta de casa, naquele sábado, cheio de esperança escorrendo pela boca, talvez eu não tivesse amado tão odiosamente o professor; talvez eu nem tivesse enxergado que o aleijão, às vezes, é justamente o que torna a existência completa - e que o amor, por exemplo, tem disso.
Eu nunca falei ao professor sobre suas mãos, sua boca... ele nunca soube que lembrava, vez ou outra, o meu pai. Agora - depois de tudo dito, tudo escrito e tudo lido - somente agora, o que há de mais miserável, mendigo e íntimo dentro de mim sabe que, quando eu pus os olhos no professor e decidi amá-lo tanto e infernizá-lo tão imensamente, eu não era a jovem cheia de malícia e esperteza, com o sexo abrindo-se em flor - e sim, a criança querendo vingar-se do abandono paterno.
Não gosto do meu nome porque não gosto da minha orelha. Ela é toda feita de um defeito gravíssimo: um pedaço que falta. Sinto-me uma aleijada, confusa por não saber ao certo se devo me consertar para que os outros me enxerguem bonita, ou se devo extrair a beleza da falha e defecar sobre a cabeça dos homens. Intimamente, temo a situação em que alguém me pergunte o meu nome, eu responda (por descuido) de forma rápida e cruel e, involuntariamente, a pessoa olhe para a minha orelha e perceba que ela não está inteira. A minha orelha também sou eu... eu não estou inteira. E são pouquíssimas as pessoas que conseguem enxergar que o aleijão, às vezes, é justamente o que torna a existência completa. O amor, por exemplo, tem disso.
Quando eu era jovem e comecei a perceber que havia em minha beleza algum poder misterioso com os homens, vivi um tórrido romance com um professor velho. Eu nunca fui a mais bela da escola, aquela que todos os garotos desejavam possuir, porque eu nunca quis ser. Eu possuo um tipo de beleza que pode ou não se manifestar: é questão de escolha. E eu nunca escolhi dar o ar de minha graça àqueles garotos mau-cheirosos e sardentos. Então era bom mesmo que eles gastassem seus púberes suores com Cecília e Amélia... assim, sobrava-me tempo e espaço para escolher um alvo e fincá-lo, certeiramente, com minha flecha juvenil. Escolhi o professor velho também porque a minha maior arma não eram os cabelos soltos ou as bochechas coradas de sol - a minha maior arma era mesmo a juventude.
Vou tentar falar desse romance porque assim eu me fortaleço um pouco. Lembrar é coisa sagrada, encontra-se as raízes das falhas, como quando descobrimos novos detalhes cada vez em que assistimos ao mesmo filme. A minha pequena história com o professor não tem nada de novo. Muito pelo contrário: sem perceber, obedece rigorosamente ao clássico e é coisa estagnada, como qualquer lugar-comum. Por isso eu peço, do fundo de minha alma, que não dês tanta importância a estas linhas, Caro Leitor, mas que fiques inteiramente a par das minhas duras entrelinhas.
Ele, o tal professor, era um homem muito bonito. E era imenso, pois havia dedicado longos anos de sua vida à sofisticação. Um intelectual? De maneira alguma. Mas um homem que sabia exatamente como conduzir a própria vida ao declínio. Mesmo as quedas do professor haviam sido arquitetadas da melhor maneira, elegantes, como a poesia Romântica. Dava-me aulas de teologia, sabia de cor os mandamentos de Deus, os pecados capitais, mas o que sabia fazer com mais propriedade era mesmo pecar. E atolava-se numa fama violenta que sobrevoava os corredores, descia as escadarias, corria o pátio, até ganhar a imensidão do jardim do colégio. "Ele adora menininhas", comentavam todos. Mas, de todos, apenas eu tinha no corpo a prova viva de que as especulações eram mesmo verdadeiras. Eu era a verdade, em carne-viva, do professor - eu, que no primeiro dia de aula, aos quinze anos de idade, já o tinha como presa fácil. Sua boca e suas mãos eram iguaizinhas as do meu pai - requisito crucial para que eu o elegesse amante.
Estou com ânsias de vômito... deve ser a boca, as mãos do professor. Sim, ele era muito bonito. Tinha pouco mais de quarenta anos de idade, barba e cabelos acinzentados, pele boa, dentadura pronta para exercer o seu papel . O que nos uniu? Conscientemente, o fato d'eu, na presença dele, entrar em contato com a parte absurda da vida da qual eu ainda era terminantemente proibida de provar. Enquanto ele, na minha presença, entrava em contato com a vida que ele pensava ter deixado escapar por entre os dedos. Superficialmente, era isso: ele me invejava profundamente por eu ser jovem, e eu o invejava por ele ser velho. E foi assim, sem medo e com uma vontade mútua e avassaladora de ser o outro, que nós dois pecamos, em cima da mesinha à qual ele se sentava, todas as manhãs, para falar à turma de desinteressados a importância daquilo que é sagrado.
Aquele colégio ensolarado passou a ser a mais doce arena para o nosso amargo combate. Amávamos tanto quanto odiávamos um ao outro. Eu era a prostituta, o horror do professor, pois fazia questão de não saber disfarçar mesmo nas horas de aula. Insinuava-me toda de forma a atingí-lo e deixá-lo desconcertantemente furioso. Muito furioso. Ao final de tudo, pegava-me com rispidez pelo braço, levava-me a um canto qualquer e dizia-me que eu era louca. E eu era louca. Quando ele dizia "louca...", eu sentia a tonturinha de quem se reconhece num insulto. Era tudo verdade e a verdadeira loucura sempre me encheu de uma espécie de medo alegre.
"Se descobrirem, ele será expulso do cargo", dizia-me as minhas coleguinhas. "Pois que seja!", eu respondia. Eu queria exercitar a brutalidade em mim, acabar com a vida de um professor qualquer. De um barbudo qualquer. De um homem qualquer. Eu sempre fui moça frágil demais, e ser assim, violenta, era uma deliciosa maneira de me proteger dessa fragilidade que tanto me atormentava. Mas, não sabia eu (claro), era também o que a denunciava. E o professor, homem maduro e vivido, logo percebeu que, se quisesse, poderia me desarmar e me deixar nuazinha. Mas, como já era de se imaginar, ele não quis - e, não só não me desarmava, como ainda me ensinava a apertar o gatilho e matar. Foi sua opção continuar sendo deliciosamente perturbado por mim. Além de tudo, ele carregava nos olhos a doçura romântica de quem já havia passado da fase da maldade. Eu vomitava e ele devorava o meu vômito, faminto por qualquer pedaço de coisa que viesse de dentro de mim.
Parte de mim sabia que o espetáculo era sórdido e de inegável baixeza. Na intimidade, lá dentro do meu quarto, eu até lambuzava-me de alguma culpa. Mas a outra parte de mim necessitava tanto empurrar o homem velho ladeira abaixo, que a culpa era mesmo reservada aos momentos mais íntimos e neles ficava, trancafiada a sete chaves. Ninguém podia enxergar-me culpada - apenas eu. Para o mundo eu havia de ser a pequena vítima que caiu nas armadilhas de um barbudo, e tudo o que eu fazia contra ele estaria dentro do meu direito à defesa. Era como se eu atacasse o professor antes que ele me atacasse... certa de que, do contrário, eu seria vencida.
Onde estaria o professor neste tempo de agora? Penso que nele não caberia jamais o tempo de agora. Ou ele não caberia no tempo de agora. O fato é que esse homenzinho de ingênua audácia é grande ou pequeno demais para caber na sujeira do mundo de hoje. Ou então é a sujeira do mundo de hoje que é grande demais para caber naquele corpo magro e desajeitado do professor. Quando ele ria, apertava os olhinhos, assim como o meu pai. E esses olhinhos eram tão bons quanto cruéis comigo, pois seriam capazes das maiores barbaridades para depois, apertados, deixar escapar algo como "foi por amor".
Depois que o meu pai foi embora de casa, deixando minha mãe, eu e minha irmã mais nova sozinhas, entendi o significado de um homem na vida de uma mulher. Não era ele que fazia falta... pelo menos não a carne dele. Era o contexto que dava corpo ao corpo dele - a exalação do seu cheiro masculino inundando a casa de segurança; o carinho pesado que somente a mão de um homem pode oferecer; a barba suja de café, que nos dava a certeza de que estávamos, de fato, diante de um macho. Meu pai foi embora e eu o perdoo porque, mais de uma vez, na tentativa de desculpar-se, ele apertou os olhinhos e deixou escapar algo como "foi por amor". Se ele não tivesse batido a porta de casa, naquele sábado, cheio de esperança escorrendo pela boca, talvez eu não tivesse amado tão odiosamente o professor; talvez eu nem tivesse enxergado que o aleijão, às vezes, é justamente o que torna a existência completa - e que o amor, por exemplo, tem disso.
Eu nunca falei ao professor sobre suas mãos, sua boca... ele nunca soube que lembrava, vez ou outra, o meu pai. Agora - depois de tudo dito, tudo escrito e tudo lido - somente agora, o que há de mais miserável, mendigo e íntimo dentro de mim sabe que, quando eu pus os olhos no professor e decidi amá-lo tanto e infernizá-lo tão imensamente, eu não era a jovem cheia de malícia e esperteza, com o sexo abrindo-se em flor - e sim, a criança querendo vingar-se do abandono paterno.
terça-feira, janeiro 06, 2009
O Outro Silêncio
Apavora-me o silêncio. Não o silêncio que também é som, agudo, solto nos ventos da madrugada. Não o silêncio amante que nos põe cansaço, depois sono, depois sonho - o amigo risonho que nos embala. Outro me apavora. Não falo do silêncio da resposta de Deus, pois, ainda que silenciosa, há, em nuvens chumbadas, uma reposta (é só plantar ouvidos no sangue e ouvir, somos todos pequenas partículas Dele). A mudez d'um afeto, por exemplo, grita mais alto que a palavra. Não acho que o silêncio de uma casa abandonada seja silêncio: deve ser a única forma que ela encontrou de dizer a escura dor do abandono. Uma criança, quando olha, não apenas olha - e não é preciso ser alguém dotado de demasiada compaixão, sensibilidade ou fantasia para perceber que alguma coisa ela fala. Esse silêncio, definitivamente, não me preocupa: é de fácil convívio com os homens, é de grandiosa intimidade com o ser, e até nos ajuda a sobreviver. O silêncio do qual tenho medo não há de ser coisa concreta tampouco coisa nomeada... Uns vivem mortos, como fosse a vida um eterno pacto com o amanhã; outros morrem vivos, como fosse a vida um pacto com a eternidade - eu estou ardendo entre essas duas espécies de gente, gorda ou magra demais para nelas caber. Eu estou verdadeiramente calada, como os poucos que carregam dentro de si um vazio de coisa, um silêncio mal-assombrado. Como fosse a vida um confuso pacto com o Nada.
sábado, janeiro 03, 2009
Solúvel
À dura carne
dou pele de correnteza,
ossos de inquietação.
Dissolvo n'água olhos,
cabelos, sexo...
Transformo sangue em rio
(o rio é meu chão).
Afobada, eu vou!
Para onde?
Vou para o jamais chegar
- ser inundação.
dou pele de correnteza,
ossos de inquietação.
Dissolvo n'água olhos,
cabelos, sexo...
Transformo sangue em rio
(o rio é meu chão).
Afobada, eu vou!
Para onde?
Vou para o jamais chegar
- ser inundação.
domingo, dezembro 28, 2008
Árdua
Põe seu ouvido em meu peito
e escuta:
vivo em função do desejo
e o desejo também é labuta.
Compreenda
quando ouvir pedras, suores, lampejo.
E sorria:
a labuta também é desejo.
Põe seu ouvido em meu peito...
Percebe?
No túmulo onde nasce a dor
renasce a verve.
e escuta:
vivo em função do desejo
e o desejo também é labuta.
Compreenda
quando ouvir pedras, suores, lampejo.
E sorria:
a labuta também é desejo.
Põe seu ouvido em meu peito...
Percebe?
No túmulo onde nasce a dor
renasce a verve.
domingo, dezembro 21, 2008
A Linha do Tempo & O Tempo da Linha
Uma agulha aponta, tensa,
o caminho:
o amor costurando
nosso vestido em linho.
Resta saber se, no futuro,
estaremos
no corpo de hoje,
para caber certinho.
o caminho:
o amor costurando
nosso vestido em linho.
Resta saber se, no futuro,
estaremos
no corpo de hoje,
para caber certinho.
terça-feira, dezembro 16, 2008
De Mulher
A minha fortaleza transforma-se em líqüido e vai-se embora pelo ralo. Ele trouxe para as minhas pernas essa fraqueza de mulher e para a minha vida essa estupidez gostosa de sentir - durante o dia sou sua fruta podre adormecida debaixo d'árvore; durante a noite sou sua fruta ainda azeda de tanta juventude. Meu homem! Encho-me de fôlego e digo - com a voz rasgada em retalhinhos -: "Meu homem"! Como é bom dizer assim que este homem, que traz nas veias urina e mel, é meu. A desgraça ganha outra forma, como se florisse em terra árida. Ele, desajeitado, bebe todo o meu leite, e eu pasto sobre seu lençol. Se a agonia tivesse cor, seria a cor dos meus olhos quando ele bate a porta e vai. Vai para onde? Ñão sei. Sei que cada instante da espera é sagrado, pois é feito de sufocante paixão. Seu bigode chupa meu veneno - seu bigode, não sua boca. Ele não é a boca, os olhos, o corpo dele... ele é o bigode dele, grosso e moreno. Seu bigode chupa, arranca o eu cruel, e depois cospe. Tomo isso como prova de amor, pois ele arranca o pior de mim e depois joga fora, deixando-me tão boa para ele enquanto ele permanece tão mau. Não sei ser outra coisa que não sua frutinha. Não sei desejar outra coisa que não seus beijos ardidos de cebola, suas mãos castigando-me pelo crime que não cometi. Pela manhã, começam a me doer os ossos. Preparo o seu dia como quem prepara o lanche do filho (como eu queria que ele coubesse dentro de mim e dentro de mim ficasse para sempre...) Encosto minha boca na sua, delirando de velhice. À noite não enxugo a testa e, assim, deixo que pinguem todos os suores do desejo: eu desejo a inundação. Antes de dormir, ajeito meu sonho de forma que possa caber dentro do seu. Ele: o homem mais bonito; o lobo traidor; a cruz de outro pendurada no pescoço; a meia-noite de qualquer madrugada. Eu: sua mulherzinha.
Tamanho é o meu prazer ao vê-lo, satisfeito, lambuzar-se da comida que eu - não outrinha, mas eu -, com tanto gosto, preparo.
Tamanho é o meu prazer ao vê-lo, satisfeito, lambuzar-se da comida que eu - não outrinha, mas eu -, com tanto gosto, preparo.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
sobre o tempo líqüido do amor
Agora és somente
a escura e suja sombra do que foste.
Cambaleias,
enquanto eu
- dura flor menstruada -,
muito do que fui ainda sou.
Passaste como passa o passarinho,
tão pobrinho,
sangrando devagar, gota a gota.
Eu sou a guerra que resiste às horas;
eu não sangrei: eu-sangue sempre agora.
Tens apenas
o resto do orvalho na pétala da carne
(o tempo te seca, do teu pranto fica as pedras de sal),
enquanto eu
- eu suo chuva o tempo todo; eu (a)temporal.
Das águas que fomos,
sobrou a lama feita de dor.
Agora é somente
a escura e suja sobra do amor.
a escura e suja sombra do que foste.
Cambaleias,
enquanto eu
- dura flor menstruada -,
muito do que fui ainda sou.
Passaste como passa o passarinho,
tão pobrinho,
sangrando devagar, gota a gota.
Eu sou a guerra que resiste às horas;
eu não sangrei: eu-sangue sempre agora.
Tens apenas
o resto do orvalho na pétala da carne
(o tempo te seca, do teu pranto fica as pedras de sal),
enquanto eu
- eu suo chuva o tempo todo; eu (a)temporal.
Das águas que fomos,
sobrou a lama feita de dor.
Agora é somente
a escura e suja sobra do amor.
segunda-feira, novembro 03, 2008
Amor
Quero escrever como quem lança
tenro olhar sobre a áspera paisagem de dentro
- doce escritura desenhando-se, elástica,
ao redor dos meus lamentos.
À dura poesia darei todo o meu molejo:
frouxo, feminino, suado!
Sobre a carne podre pousarei
o espírito apaixonado.
Quero escrever para ser o instante exato
em que não se está terra,
nem se está alto.
Minha escritura: flecha que se lançou
mas ainda não fincou o alvo.
Sou vôo raso,
vivo entre o chão e o salto,
entre o perdão e o pecado.
Quero escrever para ser florzinha
murcha nas mãos do latifundiário.
Desejo escrever, sobretudo,
para enxergar amor aonde não tem:
palavra como estupro, não importa
- o bem e o mal se confundem,
e tudo isso é amor também.
tenro olhar sobre a áspera paisagem de dentro
- doce escritura desenhando-se, elástica,
ao redor dos meus lamentos.
À dura poesia darei todo o meu molejo:
frouxo, feminino, suado!
Sobre a carne podre pousarei
o espírito apaixonado.
Quero escrever para ser o instante exato
em que não se está terra,
nem se está alto.
Minha escritura: flecha que se lançou
mas ainda não fincou o alvo.
Sou vôo raso,
vivo entre o chão e o salto,
entre o perdão e o pecado.
Quero escrever para ser florzinha
murcha nas mãos do latifundiário.
Desejo escrever, sobretudo,
para enxergar amor aonde não tem:
palavra como estupro, não importa
- o bem e o mal se confundem,
e tudo isso é amor também.
terça-feira, outubro 28, 2008
A Outra
Eu sangro não porque quero, mas porque o sangue me escapa. São cinco e quarenta e quatro da madrugada - mais dezesseis minutos e a manhã sai do forno. Já posso sentir o seu dulcíssimo cheiro de saúde, o galo abrindo-se todo em dia claro, a vida graciosamente desenhando-se, elástica. Já posso sentir o despertar arrepiado das mocinhas e as inoportunas ereções dos rapazes - a delirante harmonia se concretizando, e eu sangrando. Um calor infernal invade a minha casa e dos meus poros - dos meus poros pinga sangue, não suor. Agora já são cinco e quarenta e cinco da madrugada. Algumas pessoas acordam e, embriagadinhas de sono, derramam leite no lençol; outras ainda vão dormir e, embriagadinhas de gim, derramam café na toalha da mesa - eu, embriagadinha de amor, derramo sangue no sangue que já estava derramado em mim. Vou fumar um cigarro e conversar com Deus, volto em alguns minutos. Voltei. Demorei algumas horas, mas posso explicar: Deus estava muito longe de mim e quanto mais eu falava mais eu O sentia distante. Tive de gritar e mesmo assim não tenho a certeza de que Ele me ouviu. São oito e trinta da manhã e as pessoas vivem. A feira a esta hora deve estar até aqui de gente, as senhoras gordas e felizes comprando o almoço dos seus maridos. Sinto que a esta hora as pessoas vivem talvez o clímax de suas vidas: os homens trabalham, putrificados e corrompidos; as mulheres que não trabalham fora de casa também se corrompem e se putrificam, co'a barriga ardente de tanto fogão. No fundo todos eles sangram, mas eu - eu sei que sangro e sangro até os dentes. Sangro não porque quero, mas porque o sangue me escapa. É assim como forma de expressão: uns sangram palavra; outros sangram som; eu sangro sangue. Simples, não é? Estou toda vermelhinha e líquida, mas não tenho medo das coisas. O medo é de quem não ama, pois quando amamos as coisas, o medo é que tem medo da gente - a gente fica tão forte e cruel, tão infalível. É exatamente assim que estou me sentindo agora: sangrenta e invencível porque amo. Curioso: estou só e não me sinto só. Algo me preenche, algum mistério me adentra o corpo. Quanto mais existo, mais existo de forma completa, mesmo ausente do mundo, mesmo sendo a Estranha Mulher Que Sangra. Opa, pinguei no tapete sem querer. Vou limpar, volto num instante. Voltei. Agora são doze horas da tarde e eu sinto o cheiro da galinha guisada que a vizinha prepara. Imaginem o quanto que essa galinha sofreu e sangrou até chegar bonita e cheirosa na mesa de Dona Carmem. Essa galinha por pouco não foi eu na vida. Três horas da tarde e vocês precisavam ver: Estou quase coagulada. Meu quarto já se transformou em mar, dei-lhe o nome de Maré de Amor. Imaginem: eu, nua, nadando na vermelhidão das águas, águas com gosto de ferrugem, mergulhando, testando a respiração, bailando, leve, pesada, nua, nua, sangrenta. São seis e quinze da noite, os homens voltam do trabalho queixando-se das dores d'alma e nem reparam no cabelo novo de suas mulheres. Coitadas. Coitados. Ligam a televisão, mastigam o pão, bebem o vinho. Eu... eu me mastigo e sangro. As meninas despem-se frente ao espelho e observam seus corpos púberes - algo dentro delas lateja -; os rapazes são um pouco mais brutos - os rapazes se invadem e só há sossego quando há o líquido espesso nas mãos. Meu líquido é sangue que não pára de sangrar. Nove e vinte e sete da noite, as crianças escovam seus dentes e de repente... de repente sangram a gengiva. As mães jogam uma aguinha morna em cima e num instante tudo é como se não tivesse sido. Que mania ordinária as pessoas têm de estancar os líquidos. Eu prefiro deixar que me escapem as secreções, elas são meu grito - que mania ordinária que as pessoas têm de abafar o grito. Ai, agora dói. Meia-noite e os homens fazem aquele amor desajeitado e automático com suas esposas, eles por cima. Meia-noite e quinze: agora eles viram pr'um lado, elas pro outro e dormem cheios de pecado - mas os pecados eles também abafam, como abafam o grito. Meu pecado escorre, sou vida menstruada. Meu pecado é Lúcio. Meia-noite e trinta, Lúcio chegou, vem me beijar a boca. Que dor lá dentro... que coisa engraçada: o beijo de Lúcio dói e me rasga e me exaspera e me enche de amor. Agora vejo que amo e amo verdadeiramente e flamejante. Não sou mais eu, agora sou tudo, sou todas as mulheres do mundo numa só matéria. Neste instante sou de Lúcio, Lúcio é meu e nós dois sangramos juntos debaixo da paixão de Deus, conscientes de que a paixão de Deus é a paixão dos homens. Cinco e quarenta e quatro da madrugada: Lúcio vai embora batendo a porta. Minha barriga sorri e chora, sorri e chora, enquanto a vida me morde e beija. Meu homem foi embora: eu amante. Agora eu não sangro: eu-sangue. Orgulho-me e santifico o que sou, como quem lambe a ferida.
quinta-feira, outubro 23, 2008
Tati, A Ostra.
Eu era pequenina e melancólica, mas parecia-lhes não haver motivo algum que justificasse a minha tristeza. Eu mal deixava escapar um filete salgadinho de lágrima e, bruscamente, já me mandavam engolir o choro. Era um ritual quase religioso, sem que fosse preciso esforço d'alma.
Quando o dia amanhecia nublado, as crianças saíam, todas elas, para brincar de polícia-e-ladrão na área de lazer do condomínio em que morávamos. Sentia-se o cheiro doce da alegria juvenil há quilômetros de distância. Eu pedia em prece que me deixassem ir também, e, ocupados demais com tudo que não fosse minha insignificante presença, respondiam-me: "Aquieta-te, menina, pois vai chover, não estás vendo?", apontando seus gordos dedos para o teto da casa. Eu ficava vermelhinha de raiva e meu coração ficava tão pequeno que podia se perder dentro do meu tórax e ninguém jamais encontrá-lo. Os olhos íam apodrecendo... apodrecendo... e, antes mesmo que se transformassem em líquido, mandavam-me engolir o choro. Então eu fingia diversão para mim mesma: passava as horas que tinha e que não tinha debruçada na janela observando os colegas lá fora e brincando de brincar com eles - eu era o ladrão que havia sido preso.
Não sei por que diabos Deus gostava tanto de mim, pois era justamente nos dias ensolarados que chovia descontroladamente; nos dias nublados, curiosamente, não caía uma gota sequer de chuva - eles permaneciam apenas nublados até que o escuro da noite os cobrisse com seu manto assustador. Eu sentia estranha alegria por isso - tudo bem, eu não saía para brincar; mas eles também não venciam o jogo de adivinhar o céu.
Lembro-me de quando tive uma febre alta e resolveram me levar ao médico. Eu morria de medo de médico. Subi as escadarias daquela clínica tremendo de frio e pavor. Eu era magrinha como o que, e minhas pernas finas de inseto cambaleavam - uma valsa desastrada. Hoje, mulher que sou, penso que se eu voltasse lá após alguns anos, teria me apaixonado pelo Dr. Homem - ele era um dos poucos seres humanos que conseguiam olhar dentro dos olhos de forma profunda e sincera, além de ser o único homem que era homem até no nome. Pois bem, se eu voltasse lá após alguns anos, na certa cairia de amores por ele, mas naquela época, aquele desconfortável e doloroso instante não representava outra coisa que não o mal examinando as minhas fraquezas para em seguida dar o bote certeiro.
Foi preciso que eu fizesse uma série de exames, e eu os fiz. Num deles, o de sangue, diagnosticou-se em mim uma hipertensão. Eu não sabia ao certo do que se tratava, mas sabia que não poderia mais comer os salgadinhos que Maria Moça preparava para mim com tanto capricho. Trancada em meu quarto, eu passava os dias forçando pranto na tentativa infantil de expulsar do meu corpo todo o sal que eu havia consumido ao longo de minha até então curtíssima vida. E quando me mandavam novamente engolir o choro, eu retrucava dizendo que não podia, pois sofria de pressão alta e a lágrima era coisa demasiadamente salgada. Mas terminava por engolir.
Durante toda a infância, a tristeza foi meu crime. Eu sabia que estava, por eles, terminantemente proibida de ser triste. Muitas vezes tive de me esconder atrás da porta ou esperar que todos saíssem de casa para chorar. Quando eu lhes dizia: "Estou triste", eles falavam algo sobre ingratidão, pois eu era uma menina saudável e afortunada e por isso não havia motivo para lamentos. Eles não entendiam que minha tristeza não tinha nome tampouco sobrenome, mas estava tão viva e quente quanto eu. Eu podia pegá-la com as mãos, eu podia brincar com a minha tristeza como se ela fosse uma criança alegre.
Numa manhã de sábado, meu pai morreu. Lembro-me do velório: mamãe, mergulhada em seu desespero, ao tragar um café forte, queimou-se na língua e eu fui buscar um copo com gelo na cozinha; todos estavam lastimáveis, menos eu; obviamente meu estômago estava vão e sem fome, mas triste mesmo eu não estava. Lembro-me de algumas vizinhas e seus comentários provincianos: "A menina ainda não chorou a morte do pai, que menininha mais insensível, que demoniozinho!", e riam discretamente. Agora todos choravam, menos eu. Eu havia me evangelizado tão bem na doutrina da casa, que chorar passou a ser o meu maior pecado. Se por acaso chorasse, punia-me rigorosamente com o que estivesse ao meu alcance.
Mesmo depois de tanto tempo, ainda posso sentir o que havia de agonia em mim. Preciso remexer os meus guardados, repartir-me em cacos de vidro - sim, é um esforço bruto -, mas ainda posso sentir a dor inexplicável e latejante. Na verdade, duas dores me perturbavam: a dor e a dor por não poder sentir a dor. A primeira era o meu abismo e a minha verdade mais íntima; a segunda era o corte profundo e lento no ventre da minha moral, a dor da castração, pois, proibindo-me de ser triste, eles estavam me arrancando um órgão.
A ausência do meu pai não mudou em nada a rotina da casa, muito pelo contrário: o que já estava estabelecido permaneceu sob a condição de regra e o que era maleável tornou-se duro feito pedra. A carne de papai havia desaparecido, mas ele ainda estava lá fantasiado de outra coisa qualquer - mamãe parecia querer dizer a ela mesma que, apesar de morto, ele não havia deixado de existir, e, assim, fazia com que todas as suas ordens fossem, dia a dia, transformando-se em severas leis. Minha mãe necessitava dar continuidade a rigidez do meu pai para não deixar escapar o cheiro da vida se materializando, como um corpo que precisa da circulação do sangue para funcionar. Num penoso trabalho, cavei em minha ingênua cabecinha um buraco e lá plantei a idéia de que eu possuía todos os requisitos necessários para crescer e me tornar uma dama ordinariamente feliz.
Esparramada sobre a cama, na preguiça do domingo, tentei outra vida: num clique estava em outro mundo, mais bonito e mais colorido, o mundo da televisão. Um velho escritor estava sendo entrevistado em um programa qualquer, e falava sobre a relação quase direta do artista com a dor. Um homem de cabelos brancos, voz mansa, calça social: só podia ser alguém realmente sábio. Resolvi prestar atenção. Com um amor exacerbado pelo que dizia, ele encheu a boca e pronunciou a seguinte frase: "Ostra feliz não faz pérola". Primeiramente, fui tomada por uma sensação incrível de êxtase que nasceu nos meus pés gelados e não demorou em se espalhar por todo o corpo. Depois - a dúvida: "Por que será que ostra feliz não faz pérola?... ostra feliz não faz...pérola?". Mergulhei nos livros e iniciei a minha busca pela resposta, a minha pesquisa sobre o mundo desconhecido das ostras - o que, eu ainda não sabia, seria o mais profundo acontecimento da minha larga existência.
"Pérolas são produtos da dor; resultados da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou grão de areia": assim estava escrito nos livros. A pedrinha que enfeitava as senhoras da sociedade, as feiosas amigas de minha mãe, eram na verdade o câncer da ostra - a parte infeliz da história, o desastroso acontecimento da natureza -, e luzia como se fosse coisa macia, como se fosse fruta madura no galho.
Entrei, inconsciente e inocente, com a selvageria de mil cães ferozes, para o caminho mais doce e amargo - recolhi toda a agonia em meu ventre de mãe, pus-lhe laçarote cor-de-rosa e a transformei em palavra. O que antes era difícil, tornou-se cruelmente árduo. Sim, sobrevivi misteriosamente, eu equilibrista, mas a dor - esta doce pantera - a dor me habitava, e eu tornei-a pérola, impedida de torná-la lágrima.
Quando o dia amanhecia nublado, as crianças saíam, todas elas, para brincar de polícia-e-ladrão na área de lazer do condomínio em que morávamos. Sentia-se o cheiro doce da alegria juvenil há quilômetros de distância. Eu pedia em prece que me deixassem ir também, e, ocupados demais com tudo que não fosse minha insignificante presença, respondiam-me: "Aquieta-te, menina, pois vai chover, não estás vendo?", apontando seus gordos dedos para o teto da casa. Eu ficava vermelhinha de raiva e meu coração ficava tão pequeno que podia se perder dentro do meu tórax e ninguém jamais encontrá-lo. Os olhos íam apodrecendo... apodrecendo... e, antes mesmo que se transformassem em líquido, mandavam-me engolir o choro. Então eu fingia diversão para mim mesma: passava as horas que tinha e que não tinha debruçada na janela observando os colegas lá fora e brincando de brincar com eles - eu era o ladrão que havia sido preso.
Não sei por que diabos Deus gostava tanto de mim, pois era justamente nos dias ensolarados que chovia descontroladamente; nos dias nublados, curiosamente, não caía uma gota sequer de chuva - eles permaneciam apenas nublados até que o escuro da noite os cobrisse com seu manto assustador. Eu sentia estranha alegria por isso - tudo bem, eu não saía para brincar; mas eles também não venciam o jogo de adivinhar o céu.
Lembro-me de quando tive uma febre alta e resolveram me levar ao médico. Eu morria de medo de médico. Subi as escadarias daquela clínica tremendo de frio e pavor. Eu era magrinha como o que, e minhas pernas finas de inseto cambaleavam - uma valsa desastrada. Hoje, mulher que sou, penso que se eu voltasse lá após alguns anos, teria me apaixonado pelo Dr. Homem - ele era um dos poucos seres humanos que conseguiam olhar dentro dos olhos de forma profunda e sincera, além de ser o único homem que era homem até no nome. Pois bem, se eu voltasse lá após alguns anos, na certa cairia de amores por ele, mas naquela época, aquele desconfortável e doloroso instante não representava outra coisa que não o mal examinando as minhas fraquezas para em seguida dar o bote certeiro.
Foi preciso que eu fizesse uma série de exames, e eu os fiz. Num deles, o de sangue, diagnosticou-se em mim uma hipertensão. Eu não sabia ao certo do que se tratava, mas sabia que não poderia mais comer os salgadinhos que Maria Moça preparava para mim com tanto capricho. Trancada em meu quarto, eu passava os dias forçando pranto na tentativa infantil de expulsar do meu corpo todo o sal que eu havia consumido ao longo de minha até então curtíssima vida. E quando me mandavam novamente engolir o choro, eu retrucava dizendo que não podia, pois sofria de pressão alta e a lágrima era coisa demasiadamente salgada. Mas terminava por engolir.
Durante toda a infância, a tristeza foi meu crime. Eu sabia que estava, por eles, terminantemente proibida de ser triste. Muitas vezes tive de me esconder atrás da porta ou esperar que todos saíssem de casa para chorar. Quando eu lhes dizia: "Estou triste", eles falavam algo sobre ingratidão, pois eu era uma menina saudável e afortunada e por isso não havia motivo para lamentos. Eles não entendiam que minha tristeza não tinha nome tampouco sobrenome, mas estava tão viva e quente quanto eu. Eu podia pegá-la com as mãos, eu podia brincar com a minha tristeza como se ela fosse uma criança alegre.
Numa manhã de sábado, meu pai morreu. Lembro-me do velório: mamãe, mergulhada em seu desespero, ao tragar um café forte, queimou-se na língua e eu fui buscar um copo com gelo na cozinha; todos estavam lastimáveis, menos eu; obviamente meu estômago estava vão e sem fome, mas triste mesmo eu não estava. Lembro-me de algumas vizinhas e seus comentários provincianos: "A menina ainda não chorou a morte do pai, que menininha mais insensível, que demoniozinho!", e riam discretamente. Agora todos choravam, menos eu. Eu havia me evangelizado tão bem na doutrina da casa, que chorar passou a ser o meu maior pecado. Se por acaso chorasse, punia-me rigorosamente com o que estivesse ao meu alcance.
Mesmo depois de tanto tempo, ainda posso sentir o que havia de agonia em mim. Preciso remexer os meus guardados, repartir-me em cacos de vidro - sim, é um esforço bruto -, mas ainda posso sentir a dor inexplicável e latejante. Na verdade, duas dores me perturbavam: a dor e a dor por não poder sentir a dor. A primeira era o meu abismo e a minha verdade mais íntima; a segunda era o corte profundo e lento no ventre da minha moral, a dor da castração, pois, proibindo-me de ser triste, eles estavam me arrancando um órgão.
A ausência do meu pai não mudou em nada a rotina da casa, muito pelo contrário: o que já estava estabelecido permaneceu sob a condição de regra e o que era maleável tornou-se duro feito pedra. A carne de papai havia desaparecido, mas ele ainda estava lá fantasiado de outra coisa qualquer - mamãe parecia querer dizer a ela mesma que, apesar de morto, ele não havia deixado de existir, e, assim, fazia com que todas as suas ordens fossem, dia a dia, transformando-se em severas leis. Minha mãe necessitava dar continuidade a rigidez do meu pai para não deixar escapar o cheiro da vida se materializando, como um corpo que precisa da circulação do sangue para funcionar. Num penoso trabalho, cavei em minha ingênua cabecinha um buraco e lá plantei a idéia de que eu possuía todos os requisitos necessários para crescer e me tornar uma dama ordinariamente feliz.
Esparramada sobre a cama, na preguiça do domingo, tentei outra vida: num clique estava em outro mundo, mais bonito e mais colorido, o mundo da televisão. Um velho escritor estava sendo entrevistado em um programa qualquer, e falava sobre a relação quase direta do artista com a dor. Um homem de cabelos brancos, voz mansa, calça social: só podia ser alguém realmente sábio. Resolvi prestar atenção. Com um amor exacerbado pelo que dizia, ele encheu a boca e pronunciou a seguinte frase: "Ostra feliz não faz pérola". Primeiramente, fui tomada por uma sensação incrível de êxtase que nasceu nos meus pés gelados e não demorou em se espalhar por todo o corpo. Depois - a dúvida: "Por que será que ostra feliz não faz pérola?... ostra feliz não faz...pérola?". Mergulhei nos livros e iniciei a minha busca pela resposta, a minha pesquisa sobre o mundo desconhecido das ostras - o que, eu ainda não sabia, seria o mais profundo acontecimento da minha larga existência.
"Pérolas são produtos da dor; resultados da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou grão de areia": assim estava escrito nos livros. A pedrinha que enfeitava as senhoras da sociedade, as feiosas amigas de minha mãe, eram na verdade o câncer da ostra - a parte infeliz da história, o desastroso acontecimento da natureza -, e luzia como se fosse coisa macia, como se fosse fruta madura no galho.
Entrei, inconsciente e inocente, com a selvageria de mil cães ferozes, para o caminho mais doce e amargo - recolhi toda a agonia em meu ventre de mãe, pus-lhe laçarote cor-de-rosa e a transformei em palavra. O que antes era difícil, tornou-se cruelmente árduo. Sim, sobrevivi misteriosamente, eu equilibrista, mas a dor - esta doce pantera - a dor me habitava, e eu tornei-a pérola, impedida de torná-la lágrima.
segunda-feira, outubro 06, 2008
A Mosca
Sobrevoo-te instintivamente
- não como um bicho que pede,
mas como um bicho que clama.
Dá-me teu prato de sopa
- não como aquele que cede,
mas como Aquele que ama.
A chuva
o amor converte em lama.
Deseja-me, então,
nesta condição apodrecida
- tu me fizeste suja
posto que me fizeste mendiga.
- não como um bicho que pede,
mas como um bicho que clama.
Dá-me teu prato de sopa
- não como aquele que cede,
mas como Aquele que ama.
A chuva
o amor converte em lama.
Deseja-me, então,
nesta condição apodrecida
- tu me fizeste suja
posto que me fizeste mendiga.
quarta-feira, setembro 24, 2008
O Estrangeiro
Vou ao centro da cidade
e abraço irmãos
- mas são esses que possuem
a irreversível miséria humana.
Mergulho em copos, corpos, coisas
- os copos vazios,
os corpos magros demais,
as coisas putrificadas.
Cintila a minha dentadura
em truculentos sorrisos
- pobre de quem me vê
e pensa que sou uma adoradora!
Seguro no pêlo dos homens
e lhes beijo a boca
- no entanto sua língua
é coisa pouca.
Eu tenho dentro de mim
um vazio duro, maciço,
como se buraco fosse bolo
de matéria sólida.
Dentro do meu corpo
este corpo estranho
que, em sua rígida permanência,
já é coisa familiar.
Essa ausência
- minha irmã adotiva e única.
Essa desavença
- Mundos os quais habito
e suas línguas que não sei falar.
e abraço irmãos
- mas são esses que possuem
a irreversível miséria humana.
Mergulho em copos, corpos, coisas
- os copos vazios,
os corpos magros demais,
as coisas putrificadas.
Cintila a minha dentadura
em truculentos sorrisos
- pobre de quem me vê
e pensa que sou uma adoradora!
Seguro no pêlo dos homens
e lhes beijo a boca
- no entanto sua língua
é coisa pouca.
Eu tenho dentro de mim
um vazio duro, maciço,
como se buraco fosse bolo
de matéria sólida.
Dentro do meu corpo
este corpo estranho
que, em sua rígida permanência,
já é coisa familiar.
Essa ausência
- minha irmã adotiva e única.
Essa desavença
- Mundos os quais habito
e suas línguas que não sei falar.
segunda-feira, setembro 08, 2008
Acidente
Bebo-te como a uma mãe
- És desastre de onde eu tiro
o mais sagrado alimento.
Eu sou tua estupidez,
tua burra flor da idade,
renasces em meu nascimento.
Tu me arrebentas
- Eu, o teu rebento.
E o amor desafia em silêncio
o absurdo do tempo;
e o amor grita mudo,
entre o ser nada e o ser tudo
e, assim, ser violento.
- És desastre de onde eu tiro
o mais sagrado alimento.
Eu sou tua estupidez,
tua burra flor da idade,
renasces em meu nascimento.
Tu me arrebentas
- Eu, o teu rebento.
E o amor desafia em silêncio
o absurdo do tempo;
e o amor grita mudo,
entre o ser nada e o ser tudo
e, assim, ser violento.
segunda-feira, julho 21, 2008
Atinge o peito
Madalena tinha dezessete anos. Toda manhã, assitia ao nascer do sol debruçada na janela do seu quarto - achava-se profundamente parecida com aquele puríssimo momento feito de brisa, e desejava presenciar todas as auroras possíveis como forma de entrar em contato consigo mesma.
Era bonita como o que, mas não sabia utilizar sua beleza em benefício próprio, por isso não havia tido sequer a experiência do primeiro beijo. Seu corpo era todo feito de matas virgens e, embora intimamente quisesse existir de forma vulgar, não conseguia ser outra coisa na vida que não moça virgem.
Suas coleguinhas do colégio, todas elas, já havia tido relações mais íntimas com garotos e vez ou outra, na aula de Educação Física, cochichavam no seu ouvido os prazeres da carne. Madalena ficava toda embriagadinha.
Um dia, uma de suas colegas lhe contou que a primeira cópula era de uma dor quase insuportável. Cheia de uma coragem que brotou misteriosamente, como Cristo no ventre de Maria, Madalena ergueu a cabeça e foi falar com sua mãe.
- Mãe, é verdade que o primeiro sexo dói na mulher como se alguma coisa estivesse rompendo com tudo?
A mãe balançou a cabeça afirmando e não conseguiu prolongar a conversa - talvez porque no fundo soubesse que a menina, com o passar do tempo, havia de descobrir a fogueira sozinha.
O tempo foi passando e Madalena não conseguia pensar em outra coisa: a vida das pessoas a sua volta era estranhamente habitada por essa coisa selvagem e por ela desconhecida. O mundo era um corpo nu. Na televisão passavam aqueles filmes impróprios aos quais ela havia sido proibida de assistir quando criança - agora sua mãe não tinha mais controle e ela os assistia. No supermercado, ela sempre esbarrava nos anúncios de cerveja aonde louras seminuas insinuavam o mais delirante prazer - da cerveja ela também não havia provado. Tudo parecia existir para deixá-la tão curiosa a ponto de sentir uma leve tontura seguida de cruel azedume na boca.
Dentro de Madalena, as "moças do mundo" eram diferentes das "moças da vida": as do mundo eram basicamente as suas amigas, as atrizes dos seus filmes preferidos e também as tais louras seminuas dos anúncios de cerveja; as da vida, obviamente, eram as prostitutas do centro da cidade. As "moças do mundo" eram bonitas e certamente se casariam e teriam filhos encantadores com bochechas rosadas pedindo mordidinhas. Elas teriam o direito de amar sem que fosse preciso sujar o espírito, e o sexo seria a mais doce recompensa por uma vida tão cheia de beleza. As "moças da vida" eram feias e desajeitadas, sombrias por usarem o sexo de uma forma tão banal. Essas não teriam direito algum, pois no momento em que vendiam seus corpos por preços tão baixos, anulavam sua própria existência. O que Madalena ainda não sabia era que, de dentro para fora, essas duas "espécies" de moça eram realmente bastante diferentes; mas, de fora para dentro - se por acaso passássemos um pente fino nessa história toda - não existem espécies, e sim uma única e misteriosa espécie cuja natureza pode pesar como pesa uma condenação: a mulher.
Uma certa noite, fazia muito frio e muita solidão. Madalena tremia e já não sabia se pelo fato de ter tido sempre pouca resistência a ventos noturnos, ou se pelo fato de ter sido sempre muito sozinha. Aurélia, sua melhor amiga, ligou chamando para uma noite de surpresas em sua casa. Já era tarde, mas "nunca é tarde", pensou Madalena.
À casa de Aurélia, Breno, um amigo ruivo com o qual Madalena estudara desde o jardim da infância, também foi. Tudo estava arquitetado por Aurélia - e Madalena resolveu não reagir ao beijo povoado de alucinações que o menino lhe roubou. O que ela sentiu na hora em que foi beijada foi, inicialmente, repulsa, pois nunca havia tido provas tão concretas de que a língua do outro é realmente coisa tão molhada. Depois esse nojinho natural deu lugar a um sentimento inexplicável e inoportuno chamado desejo. Era como se, no fundo, ela desejasse o brilho sujo das prostituas do centro da cidade.
Sob um beijo interminável, Madalena e Breno entraram quarto adentro. Na cama de solteiro de Aurélia, ela finalmente soube como é se estar ardendo de paixão. Essa menina, que antes era toda feita de delicada manhã, agora rezava baixinho, implorando aos céus um pedacinho qualquer de escuridão na vida.
Na manhã seguinte, ela acordou bem cedo e Breno já havia ído embora. Perguntou a Aurélia se ele havia lhe deixado um rosa, uma carta ou mesmo um recado - nada. Voltou para casa com um nó na garganta. Durante todo o resto do dia, sentiu dores horríveis. Dores latejantes. Queixou-se várias vezes dessas dores e por não encontrar outra saída teve de ir ao médico com sua mãe. O médico era uma médica, sorte sua, pois do contrário, teria além de tudo monstruosas cóleras por causa da vergonha. Mesmo depois do sexo ela ainda sentia vergonha dos homens.
- Madalena, explique a médica exatamente o que você está sentindo... - disse a mãe.
- Doutora, eu não sei... é uma espécie de... de dor que passeia.
A médica olhou firmemente nos olhos dela.
- Dor que passeia como, minha querida?
- Não sei explicar direito... é como se fosse um peso, um peso enorme que começa nos órgãos genitais, sobe pela barriga, atinge o peito. Demora um bocado no peito e depois sai, vai para a cabeça. Depois da cabeça, faz o caminho de volta, demorando no peito e finalmente chegando aos órgão genitais.
- Madalena, você tem feito muito esforço física esses dias?
Madalena tinha que contar o que havia acontecido na noite anterior, pois estava realmente preocupada e via os olhos atentos de sua mãe implorarem um diagnóstico.
- Doutora, ontem eu fiz amor pela primeira vez. Doeu um pouco mas havia algo maior que a dor pedindo que eu continuasse, entende?
A mãe ficou muda. E a menina prosseguiu:
- Hoje cedo, quando eu acordei, o menino havia ído embora. Perguntei a minha amiga se ele havia deixado algum recadinho para mim, e nada. Voltei para casa bastante confusa e a partir daí as dores começaram a agir. São dores terríveis, doutora.
A médica, já desconfiada do seria, perguntou, apenas para confirmar:
- E essas dores, querida... "passeiam" no músculo?
Madalena pensou durante alguns instantes.
- Não... acho que é dentro.
A médica e a mãe entenderam tudo. Entreolharam-se discretamente e soltaram uma risadinha nervosa.
- Ah, meu amor, não é nada de mais. Vamos embora! - disse a mãe, cinicamente, como se quisesse despistar o ladrão do tesouro.
A médica ficou uns intantes muda, sem saber como agir, e quando mãe e filha já estavam de saída, na porta do consultório, ela disse:
- Madalena, escuta: ser mulher é assim mesmo. Acostuma-te: vai doer sempre.
E Madalena, claro, acostumou-se.
Era bonita como o que, mas não sabia utilizar sua beleza em benefício próprio, por isso não havia tido sequer a experiência do primeiro beijo. Seu corpo era todo feito de matas virgens e, embora intimamente quisesse existir de forma vulgar, não conseguia ser outra coisa na vida que não moça virgem.
Suas coleguinhas do colégio, todas elas, já havia tido relações mais íntimas com garotos e vez ou outra, na aula de Educação Física, cochichavam no seu ouvido os prazeres da carne. Madalena ficava toda embriagadinha.
Um dia, uma de suas colegas lhe contou que a primeira cópula era de uma dor quase insuportável. Cheia de uma coragem que brotou misteriosamente, como Cristo no ventre de Maria, Madalena ergueu a cabeça e foi falar com sua mãe.
- Mãe, é verdade que o primeiro sexo dói na mulher como se alguma coisa estivesse rompendo com tudo?
A mãe balançou a cabeça afirmando e não conseguiu prolongar a conversa - talvez porque no fundo soubesse que a menina, com o passar do tempo, havia de descobrir a fogueira sozinha.
O tempo foi passando e Madalena não conseguia pensar em outra coisa: a vida das pessoas a sua volta era estranhamente habitada por essa coisa selvagem e por ela desconhecida. O mundo era um corpo nu. Na televisão passavam aqueles filmes impróprios aos quais ela havia sido proibida de assistir quando criança - agora sua mãe não tinha mais controle e ela os assistia. No supermercado, ela sempre esbarrava nos anúncios de cerveja aonde louras seminuas insinuavam o mais delirante prazer - da cerveja ela também não havia provado. Tudo parecia existir para deixá-la tão curiosa a ponto de sentir uma leve tontura seguida de cruel azedume na boca.
Dentro de Madalena, as "moças do mundo" eram diferentes das "moças da vida": as do mundo eram basicamente as suas amigas, as atrizes dos seus filmes preferidos e também as tais louras seminuas dos anúncios de cerveja; as da vida, obviamente, eram as prostitutas do centro da cidade. As "moças do mundo" eram bonitas e certamente se casariam e teriam filhos encantadores com bochechas rosadas pedindo mordidinhas. Elas teriam o direito de amar sem que fosse preciso sujar o espírito, e o sexo seria a mais doce recompensa por uma vida tão cheia de beleza. As "moças da vida" eram feias e desajeitadas, sombrias por usarem o sexo de uma forma tão banal. Essas não teriam direito algum, pois no momento em que vendiam seus corpos por preços tão baixos, anulavam sua própria existência. O que Madalena ainda não sabia era que, de dentro para fora, essas duas "espécies" de moça eram realmente bastante diferentes; mas, de fora para dentro - se por acaso passássemos um pente fino nessa história toda - não existem espécies, e sim uma única e misteriosa espécie cuja natureza pode pesar como pesa uma condenação: a mulher.
Uma certa noite, fazia muito frio e muita solidão. Madalena tremia e já não sabia se pelo fato de ter tido sempre pouca resistência a ventos noturnos, ou se pelo fato de ter sido sempre muito sozinha. Aurélia, sua melhor amiga, ligou chamando para uma noite de surpresas em sua casa. Já era tarde, mas "nunca é tarde", pensou Madalena.
À casa de Aurélia, Breno, um amigo ruivo com o qual Madalena estudara desde o jardim da infância, também foi. Tudo estava arquitetado por Aurélia - e Madalena resolveu não reagir ao beijo povoado de alucinações que o menino lhe roubou. O que ela sentiu na hora em que foi beijada foi, inicialmente, repulsa, pois nunca havia tido provas tão concretas de que a língua do outro é realmente coisa tão molhada. Depois esse nojinho natural deu lugar a um sentimento inexplicável e inoportuno chamado desejo. Era como se, no fundo, ela desejasse o brilho sujo das prostituas do centro da cidade.
Sob um beijo interminável, Madalena e Breno entraram quarto adentro. Na cama de solteiro de Aurélia, ela finalmente soube como é se estar ardendo de paixão. Essa menina, que antes era toda feita de delicada manhã, agora rezava baixinho, implorando aos céus um pedacinho qualquer de escuridão na vida.
Na manhã seguinte, ela acordou bem cedo e Breno já havia ído embora. Perguntou a Aurélia se ele havia lhe deixado um rosa, uma carta ou mesmo um recado - nada. Voltou para casa com um nó na garganta. Durante todo o resto do dia, sentiu dores horríveis. Dores latejantes. Queixou-se várias vezes dessas dores e por não encontrar outra saída teve de ir ao médico com sua mãe. O médico era uma médica, sorte sua, pois do contrário, teria além de tudo monstruosas cóleras por causa da vergonha. Mesmo depois do sexo ela ainda sentia vergonha dos homens.
- Madalena, explique a médica exatamente o que você está sentindo... - disse a mãe.
- Doutora, eu não sei... é uma espécie de... de dor que passeia.
A médica olhou firmemente nos olhos dela.
- Dor que passeia como, minha querida?
- Não sei explicar direito... é como se fosse um peso, um peso enorme que começa nos órgãos genitais, sobe pela barriga, atinge o peito. Demora um bocado no peito e depois sai, vai para a cabeça. Depois da cabeça, faz o caminho de volta, demorando no peito e finalmente chegando aos órgão genitais.
- Madalena, você tem feito muito esforço física esses dias?
Madalena tinha que contar o que havia acontecido na noite anterior, pois estava realmente preocupada e via os olhos atentos de sua mãe implorarem um diagnóstico.
- Doutora, ontem eu fiz amor pela primeira vez. Doeu um pouco mas havia algo maior que a dor pedindo que eu continuasse, entende?
A mãe ficou muda. E a menina prosseguiu:
- Hoje cedo, quando eu acordei, o menino havia ído embora. Perguntei a minha amiga se ele havia deixado algum recadinho para mim, e nada. Voltei para casa bastante confusa e a partir daí as dores começaram a agir. São dores terríveis, doutora.
A médica, já desconfiada do seria, perguntou, apenas para confirmar:
- E essas dores, querida... "passeiam" no músculo?
Madalena pensou durante alguns instantes.
- Não... acho que é dentro.
A médica e a mãe entenderam tudo. Entreolharam-se discretamente e soltaram uma risadinha nervosa.
- Ah, meu amor, não é nada de mais. Vamos embora! - disse a mãe, cinicamente, como se quisesse despistar o ladrão do tesouro.
A médica ficou uns intantes muda, sem saber como agir, e quando mãe e filha já estavam de saída, na porta do consultório, ela disse:
- Madalena, escuta: ser mulher é assim mesmo. Acostuma-te: vai doer sempre.
E Madalena, claro, acostumou-se.
terça-feira, julho 01, 2008
Aurora
Eu simplesmente sou. Dá-me esse direito de ocultar maiores manifestações do ser. Não há essa necessidade de preenchimento em mim, essa brusca busca pela nomeação (exata) do espírito. Deixe-me deitar no limbo, ser coisa sem valiosa história às costas - são inúmeras as vezes em que a cruz de ouro pesa mais que um mundo. E se eu te disser que não desejo ser burrinho de carga?
Um homem não é um homem porque assim se define, e sim porque nasceu homem e não poderia ser outra coisa na vida que não homem. Entendes o que eu quero dizer? Quero dizer que toda transparência tem que se dar de forma naturalmente humana. É como desnudar-se frente ao espelho: enxergar a carne é um exercío natural da alma. Tudo é cíclico demais: o lobo engana a gente, a gente engole o lodo - e o lodo é mar também. O dia vira noite que vira dia e eu, particularmente, amo os passarinhos cantando pela manhã porque a manhã possui a inesgotável ternura que os homens não têm e que suas mãos jamais poderão tocar. É dentro da manhã que eu consigo vislumbrar o filete de arrepio que me falta.
Eu gosto mesmo da doçura permanente que a aurora tem. Pela manhã, não existe nada que seja pedaço de outra coisa qualquer, tudo é manhã na dura paisagem cintilante. Mordendo a aurora, sente-se esse gosto de coisa natural da qual falei e tudo se demora um bocado, contrariando essa equivocada idéia de que o que é realmente bom dura pouco tempo. Ela não dói nem sufoca e pulsa feito músculo no peito - tenho pra mim que a aurora é um coração líquido inundando a nossa morada todos os dias. Ela exala um cheiro inocente e febril, um cheiro de água-benta - a manhã é também o baptismo de todos nós. Um baptismo diferente a cada dia. Através dela podemos ser essa coisa sem nome pela qual eu rogo, pois se o dia renasce, nós também podemos renascer.
Eu simplesmente sou. Não ouso fazer sentido demais, pois acredito que nada nesta vida possa ultrapassar a linha de chegada. Dá-me esse direito de não chegar lá, como todo mundo, dá-me esse direito de não ser isso ou aquilo pois apenas essa idéia me fortalece e me embriaga de felicidade, apenas sobre este tapete minha essência adormece e acorda tranquila, apenas sob o título de 'simplesmente ser' eu consigo carregar tanto sol em mim. Mas se, por acaso, teimares comigo e de nada adiantar o meu tanto esforço na palavra; se, por acaso, necessitares mesmo me definir, defina-me assim: a moça é como a manhã - indefinível.
Um homem não é um homem porque assim se define, e sim porque nasceu homem e não poderia ser outra coisa na vida que não homem. Entendes o que eu quero dizer? Quero dizer que toda transparência tem que se dar de forma naturalmente humana. É como desnudar-se frente ao espelho: enxergar a carne é um exercío natural da alma. Tudo é cíclico demais: o lobo engana a gente, a gente engole o lodo - e o lodo é mar também. O dia vira noite que vira dia e eu, particularmente, amo os passarinhos cantando pela manhã porque a manhã possui a inesgotável ternura que os homens não têm e que suas mãos jamais poderão tocar. É dentro da manhã que eu consigo vislumbrar o filete de arrepio que me falta.
Eu gosto mesmo da doçura permanente que a aurora tem. Pela manhã, não existe nada que seja pedaço de outra coisa qualquer, tudo é manhã na dura paisagem cintilante. Mordendo a aurora, sente-se esse gosto de coisa natural da qual falei e tudo se demora um bocado, contrariando essa equivocada idéia de que o que é realmente bom dura pouco tempo. Ela não dói nem sufoca e pulsa feito músculo no peito - tenho pra mim que a aurora é um coração líquido inundando a nossa morada todos os dias. Ela exala um cheiro inocente e febril, um cheiro de água-benta - a manhã é também o baptismo de todos nós. Um baptismo diferente a cada dia. Através dela podemos ser essa coisa sem nome pela qual eu rogo, pois se o dia renasce, nós também podemos renascer.
Eu simplesmente sou. Não ouso fazer sentido demais, pois acredito que nada nesta vida possa ultrapassar a linha de chegada. Dá-me esse direito de não chegar lá, como todo mundo, dá-me esse direito de não ser isso ou aquilo pois apenas essa idéia me fortalece e me embriaga de felicidade, apenas sobre este tapete minha essência adormece e acorda tranquila, apenas sob o título de 'simplesmente ser' eu consigo carregar tanto sol em mim. Mas se, por acaso, teimares comigo e de nada adiantar o meu tanto esforço na palavra; se, por acaso, necessitares mesmo me definir, defina-me assim: a moça é como a manhã - indefinível.
quinta-feira, junho 05, 2008
Corpo D'água
Terei eu
- Pobre mulherinha líquida -
O direito de morrer ardente
Como morre o mar na praia?
Terei eu este escandaloso acabamento:
Beijando os pés dos meus homens,
O som de minhas ondas como lamento,
Ameaçando de vida meu último suspiro?
Quero o espancamento!
Morrer abraçando cruzes
Fincadas no deslumbramento.
E ser um bicho fêmea:
Pranto e gozo feitos de água,
Qualquer corpo no estado líquido,
O desejo de morrer assim,
Suado e bonito. Assim,
Como, na praia, morre o mar
- Em um galope oblíquo não saber ao certo
se quer morrer ou matar.
- Pobre mulherinha líquida -
O direito de morrer ardente
Como morre o mar na praia?
Terei eu este escandaloso acabamento:
Beijando os pés dos meus homens,
O som de minhas ondas como lamento,
Ameaçando de vida meu último suspiro?
Quero o espancamento!
Morrer abraçando cruzes
Fincadas no deslumbramento.
E ser um bicho fêmea:
Pranto e gozo feitos de água,
Qualquer corpo no estado líquido,
O desejo de morrer assim,
Suado e bonito. Assim,
Como, na praia, morre o mar
- Em um galope oblíquo não saber ao certo
se quer morrer ou matar.
quinta-feira, maio 29, 2008
Crime Delicado
Do meu espírito, o veneno
- Chupas não somente a fruta-carne,
Mas também o meu caroço.
Há dura paisagem no que sou
- Florestas densas; denso bosque incolor.
E mesmo a par dos horrores de me ser,
Mergulhas com coragem
Nesta tão somente tua capacidade de me ver.
És assombro para mim. E descoberta:
Reflexo do meu dentro que lateja,
O céu das coisas íntimas
Rasga a lona e lampeja.
Descobrindo-me, tu me matas, como alguém que,
Para decifrar existência, a flor despetala.
E és o único que
- Eu já despetalada; eu suco cítrico -
Enxerga em mim a beleza do que é feio:
Do meu veneno, o espírito.
- Chupas não somente a fruta-carne,
Mas também o meu caroço.
Há dura paisagem no que sou
- Florestas densas; denso bosque incolor.
E mesmo a par dos horrores de me ser,
Mergulhas com coragem
Nesta tão somente tua capacidade de me ver.
És assombro para mim. E descoberta:
Reflexo do meu dentro que lateja,
O céu das coisas íntimas
Rasga a lona e lampeja.
Descobrindo-me, tu me matas, como alguém que,
Para decifrar existência, a flor despetala.
E és o único que
- Eu já despetalada; eu suco cítrico -
Enxerga em mim a beleza do que é feio:
Do meu veneno, o espírito.
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