Sábado, Outubro 03, 2009

O Fantasma

Nosso amor morreu recém-nascido.
Ouço a escuríssima canção dos ventos:
a Marcha Fúnebre lamentando o meu lamento.
A vagina da mãe chorando, ainda sangrenta do parto.
O câncer no peito do pai
- medalha concebida pelo sofrimento.
Nosso amor se foi recém-chegado.
Um amor-menino: nossa pequenina desgraça.
As flores no túmulo
- o túmulo que é berço -
e a voz de um deus, lá longe, dizendo "tudo passa".
Nosso amor: germe que não germinou.
A mãe delira em febre, o pai entrega-se à cachaça.
Nosso amor: coisa que nunca coisou.
Morta, essa criança nos visita;
pálida, essa criança nos abraça.

Sábado, Setembro 12, 2009

"E ASSIM CAMINHA A TERCEIRA IDADE..."

Palavra do Autor

Para escrever o espetáculo "E ASSIM CAMINHA A TERCEIRA IDADE...", eu - tomada pela coragem cega que os 19 anos concedem - precisei mergulhar nesse mar indecifrável que é o ser humano. Sem dúvida, trata-se de uma empreitada perigosa, pois quando mergulhamos no desconhecido, nunca sabemos ao certo o que iremos encontrar. Em contrapartida, o mergulho se faz necessário para que saibamos que, por maior que seja o nosso desejo de compreender e dar sentido exato à existência, algum pedaço de vida - justamente o que chamamos de mistério - sempre nos escapará.


Foi com o intuito de preservar o que há de mais misterioso dentro e fora do homem, que aceitei o convite e abracei carinhosamente este projeto, consciente de minha responsabilidade - eu, até então uma autora inédita, estaria, de fato, diante de grandes artistas! De um lado, Pedro Oliveira: o Diretor maravilhosamente visceral. Do outro, a minha palavra - que até então havia sido dedicada somente à literatura - na voz e no corpo da 1ª Dama do Teatro Pernambucano: Geninha da Rosa Borges.


"E ASSIM CAMINHA A TERCEIRA IDADE..." poderia ter sido escrito por qualquer um de nós, pois tratando-se do último suspiro de vida de uma mulher comum, e tendo como argumento um dos mais formidáveis poemas de Charles Chaplin, é um espetáculo que revela o sentimento universal - embora deixe claro que cada vida é uma experiência única - e que pretende resgatar a humanidade perdida dentro de nós.


(Amanda Moraes)



PRLM de Melo Produções apresenta:


Geninha da Rosa Borges em

"E ASSIM CAMINHA A TERCEIRA IDADE..."


Direção: Pedro Oliveira

Texto: Amanda Moraes


Dia 22 de setembro de 2009,

no Teatro de Santa Isabel,

às 21h.


Confira no youtube Geninha da Rosa Borges no Programa do Jô. Atriz fala de sua carreira e de seu novo espetáculo.

Domingo, Agosto 16, 2009

O Roedor

Você, solto dentro de mim,
feito um bicho.
Você me roendo a cor dos olhos,
sim, e também os mamilos
- o leite azedo que jorra dos mamilos.

Você me roendo a música clássica
que o coração executa.

Você roendo os ruídos da minha festa,
a fogueira na qual me ardo,
a lama nos meus sapatos,
o meu beijo de morte.

Roendo também a minha sorte.

Você me roendo o cetim da roupa,
os dias sangrentos, as noites úmidas,
a triste espera por um milagre,
o pão, a poesia, os homens, o Deus.

A sua língua roendo a minha linguagem,

os dentes afiados do meu cão,
minha sombra, meu pecado, minha redenção,
você roendo você - que também é parte minha.

Feito um bicho que rói
e também ilumina,
você vai me roendo
e vai me iluminando:

tornando cheio o vazio que fica
- dando à minha miséria
a grandeza de se saber miserável.

Quinta-feira, Julho 16, 2009

A Bruxa

Impuseram-me a fogueira:
Disseram-me suja, sombria, feiticeira.

Incendiaram-me o sexo
E eu estou morrendo:
Mas é de vida que eu morro,
Eu sofro mas sofro ardendo!

No fogo sofre, morre e arde
A mulher que não é covarde;
A mulher que não inventa o espírito
Para justificar a carne.

Domingo, Junho 14, 2009

CARTA AO FUTURO AMANTE

Recife, treze de junho de 1989
Querido Outro,


Ontem à noite, pouco antes de adormecer, eu construí um castelo. Um castelo azul, ou vermelho, ou cor-de-castelo mesmo – já não sei bem. Um altíssimo castelo, iluminado, lindo, onde viveremos amando e, do mais ardente amor, morreremos: com o sangue elegante dos amantes jorrando dos nossos furos, ou feridas, ou sussurros –já não sei bem. O meu único medo era o de porventura sermos descobertos em nossa liberdade, por isso, cuidadosamente, tratei de construir um castelo oculto; solto dentro da noite secreta; perdido na mata inviolável do ser. Um castelo selvagem, cuja porta nos devorará até que nós devoraremos não somente as portas, mas também janelas e paredes e vidraças – nós: famintos e ávidos de mais amor, Querido, já pensou? Dentro desse Novo Mundo – a que prefiro, carinhosamente, chamar de castelo – dentro desse Novo Mundo, nós correremos perigo por amar demais e, justamente por amar tanto, também seremos perigosos: fuçando um pouco mais o imaginário, posso nos ver imensos, temidos pela mobília, quadros, escadarias, tudo. E nós, tomados pelo habitual sadismo dos amantes, debocharemos da vida, equilibristas, vagabundos, animais. Eu serei a mulherzinha: nua, fértil, liberta; você será o macho: silencioso, peludo, feroz – nós dois, juntos, seremos uma única criatura úmida, enquanto o sentimento, essa força maior, será o nosso criador. Às vezes nos possuirá, de súbito, aquela vontade natural de destruir tudo e pôr à baixo o castelo, mas não faz mal: resistiremos heroicamente, e aproveitaremos a fúria para nos atirar um contra o outro, ou entrar um no outro, ou morar um no outro – já não sei bem. Aos domingos, sairemos para brincar no jardim: você dará um jeito qualquer de adivinhar o meu estado de espírito e enfiará uma florzinha murcha entre os meus cabelos; nós chuparemos frutas cítricas até que não lhes sobre nem mesmo o caroço; cavalgaremos leões, ou onças, ou nós mesmos. Viveremos dentro da célula-mãe das coisas, seremos matéria-prima. Querido, acredite: com essas mãos de velha e esse fôlego cansado – a partir dessa fina matéria de vida que me resta – eu construí um castelo! Um castelo, ou um edifício, ou mesmo uma modesta casinha – já não sei bem. O que eu sei é que, apaixonadamente, ergui paredes e construí a nossa morada. Agora só me resta construir você, Querido.

Sábado, Maio 30, 2009

Violência

Um dia,
uma criança me disse
que a cor da violência
era escura
- escrevi negro,
sem atadura
(Há muitas possibilidades
de escrita
- eu escolho sempre
aquela que grita).

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Falso Brilhante

Um dia, à tardinha,
se Deus me puser forças,
hei de escrever um poema.
Um poema fraco. Verdadeiro,
desses em que a gente se ilumina
- como se, ao bem escrevê-lo,
eu bebesse o sangue dos artistas.
Com a palavra risonha,
escreverei raso, escreverei bonito.
E escreverei fácil:
o verbo faceiro no lugar do grito.
Prometo escrever algo heróico:
falarei sobre guerras vencidas,
flores desabrochadas sob o sol,
amantes bem-aventurados
(benditos sejam os burgueses apaixonados)!
Hei de ser aquela que tem paz,
aquela que traz luz,
aquela que alimenta-se da fama.
Hei de escrever um poema são,
metricamente perfeito,
que rasgue a mortalha e rejeite a lama.
Hei de ir exatamente por aí:
estrada ladrilhada com brilhantes,
por onde o meu amor passa,
onde árvores frondosas adornam a paisagem,
onde a existência é rica,
e onde os passos de um homem não são
nada mais que os passos de um homem.
Uma tarde qualquer - eu prometo -,
se Deus me puser forças, mas hoje não!
Hoje sou escuríssimo coração.
Um dia serei a poetinha que desejam,
e gargalharei a vida, reprimida,
como quem esconde, na barriga,
o desespero.