Do meu espírito, o veneno
- Chupas não somente a fruta-carne,
Mas também o meu caroço.
Há dura paisagem no que sou
- Florestas densas; denso bosque incolor.
E mesmo a par dos horrores de me ser,
Mergulhas com coragem
Nesta tão somente tua capacidade de me ver.
És assombro para mim. E descoberta:
Reflexo do meu dentro que lateja,
O céu das coisas íntimas
Rasga a lona e lampeja.
Descobrindo-me, tu me matas, como alguém que,
Para decifrar existência, a flor despetala.
E és o único que
- Eu já despetalada; eu suco cítrico -
Enxerga em mim a beleza do que é feio:
Do meu veneno, o espírito.
quinta-feira, maio 29, 2008
sexta-feira, maio 23, 2008
A menina e o véu da (in)verdade
Tarde demais: já era como se seu mundo girasse em torno daquele véu. Um véu que escondia, porém revelava muito, como quando alguém cala. Vivia nua, coberta somente por aquele véu transparente - tivera a coragem de poucos, coragem de reconhecer-se como sendo parte fundamental de tudo o que diz respeito a humanidade, e escolhera o véu como instrumento de mostrar ao mundo que era bicho, bicho homem. Ela era matéria de carne e espírito, todos são, mas pouquíssimos - para não dizer nenhum - tiveram essa ânsia de viver e essa imaculada capacidade de desvendar que a existência é realmente indesvendável. Por isso usava o véu, para provar aos seus homens, amigos, parentes que querer decifrar qualquer parte humana é o mesmo que querer extinguir a humanidade - o amor, por exemplo, existe tão longe do nosso entendimento, que criticá-lo seria um ato de extrema burrice.
Ela realmente acreditava nesta forma de viver: expandindo ao máximo seu mundinho medíocre. Ela supunha que tudo o que ela podia tocar era medíocre, pois ela-poder-tocar significava que havia coisas além, intocáveis. E quando se esticava toda e conseguia novamente tocar naquilo que há pouco era intocável, ela, então, tinha a absoluta certeza de que havia sim coisas além, intocáveis. Por isso não suportava que as pessoas andassem com aquele ar ordinariamente feliz, de quem tudo sabe sobre a vida. Não suportava ter de conviver com gente que não se reconhecia bicho, bicho homem. E ainda assim, amava profundamente o outro, com o amor abrangente e inexplicável de quem olha para dentro de si e se ama.
Não é que ela tivesse as respostas para todas as perguntas, muito pelo contrário: ela tinha muitas perguntas e quase nenhuma resposta, como todo mundo. O fato é que ela conseguia enxergar que ter todas as respostas nas mãos é o mesmo que desistir de viver, então não procurava compreender as naturezas, embora reconhecesse que a vontade de se saber a verdade, se é que a verdade existe, é coisa naturalíssima, que também não carece precisão. Pode-se dizer até que ela era a própria pergunta, a pergunta em seu estado mais eufórico para saber a resposta, a resposta que, quando não vinha, fazia com que ela delirasse de uma excêntrica alegria.
Nome, gênero, ordem - para ela tudo isso era a Ditadura Do Ser em seu mais puro estado de cinismo, e entre fazer parte dessa massa ou ser apenas uma expectadora, ela sempre preferiu a segunda opção, já que não lhe foi dado o direito de mudar de mundo cada vez que se sentisse solitária. Afinal, a solidão também é coisa natural do ser humano, e até isso ela sabia compreender e amar. A flor que ela cultivava, flor cujo nome era inexistente, era tão livre, tão livre, que ultrapassava qualquer estado de liberdade. Ela nunca ousou dar-lhe o nome de liberdade porque acreditava que, nomeando, estaria roubando a sua dimensão, como algo que está vazio perde o sentido de vazio quando nomeado - visto que está, sim, cheio de ausência.
Ela era uma moça cruelmente vã, eu diria: veio ao mundo para tornar as coisas menos exatas. E quando alguém lhe perguntava: "Quem é você?", ela apertava os olhos num sorriso e respondia: "Sobre essas questões de ser, não posso dizer muita coisa, embora haja nos instantes de silêncio a possibilidade de adivinhação. Adivinha-me, então: só assim as leis se tornam justas".
Ela realmente acreditava nesta forma de viver: expandindo ao máximo seu mundinho medíocre. Ela supunha que tudo o que ela podia tocar era medíocre, pois ela-poder-tocar significava que havia coisas além, intocáveis. E quando se esticava toda e conseguia novamente tocar naquilo que há pouco era intocável, ela, então, tinha a absoluta certeza de que havia sim coisas além, intocáveis. Por isso não suportava que as pessoas andassem com aquele ar ordinariamente feliz, de quem tudo sabe sobre a vida. Não suportava ter de conviver com gente que não se reconhecia bicho, bicho homem. E ainda assim, amava profundamente o outro, com o amor abrangente e inexplicável de quem olha para dentro de si e se ama.
Não é que ela tivesse as respostas para todas as perguntas, muito pelo contrário: ela tinha muitas perguntas e quase nenhuma resposta, como todo mundo. O fato é que ela conseguia enxergar que ter todas as respostas nas mãos é o mesmo que desistir de viver, então não procurava compreender as naturezas, embora reconhecesse que a vontade de se saber a verdade, se é que a verdade existe, é coisa naturalíssima, que também não carece precisão. Pode-se dizer até que ela era a própria pergunta, a pergunta em seu estado mais eufórico para saber a resposta, a resposta que, quando não vinha, fazia com que ela delirasse de uma excêntrica alegria.
Nome, gênero, ordem - para ela tudo isso era a Ditadura Do Ser em seu mais puro estado de cinismo, e entre fazer parte dessa massa ou ser apenas uma expectadora, ela sempre preferiu a segunda opção, já que não lhe foi dado o direito de mudar de mundo cada vez que se sentisse solitária. Afinal, a solidão também é coisa natural do ser humano, e até isso ela sabia compreender e amar. A flor que ela cultivava, flor cujo nome era inexistente, era tão livre, tão livre, que ultrapassava qualquer estado de liberdade. Ela nunca ousou dar-lhe o nome de liberdade porque acreditava que, nomeando, estaria roubando a sua dimensão, como algo que está vazio perde o sentido de vazio quando nomeado - visto que está, sim, cheio de ausência.
Ela era uma moça cruelmente vã, eu diria: veio ao mundo para tornar as coisas menos exatas. E quando alguém lhe perguntava: "Quem é você?", ela apertava os olhos num sorriso e respondia: "Sobre essas questões de ser, não posso dizer muita coisa, embora haja nos instantes de silêncio a possibilidade de adivinhação. Adivinha-me, então: só assim as leis se tornam justas".
domingo, maio 18, 2008
Pedaço de Mim
Defenderei os meus romances até o inevitável instante em que se pronunciará o meu último suspiro. Defenderei sim, pois em meus romances, bebidos sempre até a última gota, tornei-me tão minha, tornei-me tão eu, que, depois de algum tempo, pude perceber que amar profundamente alguém se tornou amar, de uma forma duplamente profunda, a mim mesma. Apaixonar-se é mesmo como se sentir inteira. Quando esta paixão me é recusada - dando-me a impressão de que há, sim, uma parte exilada do corpo -, eu adivinho o segredo: o aleijão é justamente o que torna a existência completa. É assim como a mãe que pariu - Experimentar todas as desgraças do filho, o filho que já não é mais um membro seu, faz dela muito mais mãe do que quando ela o carregava no ventre. Amar é se reconhecer: olhar-se no espelho e enxergar o outro, ou ver no outro o seu reflexo. Todo esse cheiro de loucura que o amor exala é, na verdade, o cheiro do meu dentro borbulhante. Amar é justamente deixar-se borbulhar, deixar-se ser taça de champagne circulando nas mãos dos homens, dos homens maus, com a infinita garantia de que, mesmo sob todas as desventuras, até mesmo quando a morte vier beijar os meus pés, eu continuarei sendo sempre a mulher que ama. Defendendo os meus romances, estarei erguendo a minha própria defesa: os meus romances são o pedaço de mim que eu fantasio de história; o grito sólido de amor pela minha própria pessoa.
domingo, maio 11, 2008
Duo
Paradoxalmete, vou-me construindo, como se eu carregasse em mim peso e leveza, um pouco de patrão e de negrinho. Parte de mim anoitece sóbria, outra parte tem febre e delira - acredito que a vida seja assim mesmo para quem, como eu, mergulha em tudo o que há de natureza humana. Sou sempre duplamente: mulher das cavernas abraçando luzes, senhora das enchentes de vazio, lambendo docemente os rios - sou mulher de lamber as coisas. Um tanto reprimida, outra tanto perdulária. Em meu útero: filhos ardentes; em minha alma: rocha, pedra calcária. E assim, vou-me mostrando, co'a boca orgulhosa pintada de risos e com uma tristeza amarga no olhar: em meu rosto, desenha-se um córrego com duas vertentes: uma boa, outra mar. Tudo me faz sofrer e gozar: a existência, quando não me é rebento, me arrebentar.
domingo, maio 04, 2008
Sou Quando Julieta Desperta
Nada é tão mulher quanto macho sedento em meu interior agora vão. Um dia, fui, deliciosamente, tão dilacerada quanto dilacerante, mas agora, na tentativa diária de poesia, é como se eu vomitasse vácuo; parisse vento. Não sou a substância excêntrica que a feiticeira mistura em seu caldeirão para fazer morrer meninos e meninas: sou exatamente o antídoto; a parte feliz da história; o contraveneno agindo em silêncio. Sou quando Julieta desperta, o amanhecer raso e sóbrio, as garças tranqüilas na beira de um lago. Sou, definitivamente, gravidez psicológica: parto não há. Não há o rebento, não há o rebentar. Até a morte se cansou de mim - eu, que vivo para morrer. A morte não me vem beijar os pés. Eu tento e, embora exista dentro do tentar um instante de esperança em que se tem fé em tudo, não adianta: nada corta, nada treme, nada teme nada, pois não há mais o que temer. Agora é tudo de uma certeza frustrante, como se assim fosse a vida - um simples caminhar pelo parque, sem se perder. Sou peixinho vivendo no aquário pequeno em cima da estante velha da casa da vovó: pedacinho de coisa natural de existência absolutamente decifrável. Não sei mais ser rosa pálida em agonia; não sei ser bicho atropelado, agonizando; não sei ser mãe que perdeu filhos, tampouco sei ser mãe que acabou de ganhar filhos. Não sei ser menina violentada pelo tio, pela moral rígida, pela própria vida. É tudo de uma tranqüilidade quase invisível, de uma felicidade quase mitológica, de uma estabilidade quase irreal. Quero de volta o grito rouco dos poetas, pois hoje tudo o que eu sei ser é pássaro em paz.
quinta-feira, abril 24, 2008
Maligna
Hoje me desnudei frente ao espelho, co'a boca vermelha entreaberta, como quem insiste em esperar qualquer coisa do vácuo. Eu tive a nítida impressão de que dou para o mal. Não o mal benigno, o mal que todo ser-humano necessita possuir, mas o mal de quem tem a nítida impressão de que dá para o mal: o mal de quem furou todos os dedos em pacto com o Demônio. O que eu sou? - perguntei-me - Sou nada além de um bicho solto. Uma vontade quase satânica de contemplar o que é feio - quem dera fosse por exercício de exacerbação, mas não: uma vontade de contemplar o que é rubro, pois ser menina pálida do portão de casa me dá tantas e tantas ânsias de vômito. Hoje me desnudei frente ao espelho e soltei os meus cabelos negros ensaiando o ato de fazer doer. E desejei, fria e intimamente, ser o chicote maltratando a carne de todos os homens de bem.
terça-feira, abril 08, 2008
(In)sanidade
Se somos filhos do desamor - da união incrédula e infiél, onde há somente o desejo dos dentes cravados na carne -, somos filhos da loucura, pois não há maior delírio que o de se entregar sem alma. Se somos filhos do amor - da união de espíritos numa noite medonha de estrelas ardentes no céu-da-boca -, também somos filhos da loucura, pois não há maior delírio que o de abandonar cárceres em nome do vôo e em seguida enjaular-se novamente em novo mundo. Querida, vês? Não há, portanto, quem se salve das alucinações bandidas: qualquer alucinação, ainda que, por vezes, roube os nossos sentidos e incendeie a nossa morada - ainda que nos apunhale pelas costas -, qualquer alucinação nos devora: tanto, tão completamente, que nos resta aceitar a condição de que crescemos em seu útero e em seu útero quente de mãe macia permaneceremos. De uma forma ou de outra, somos mesmo doce fruto d'alguma loucura, como suco escorrendo pelo queixo da menina no instante em que ela morde a ameixa roubada da árvore da vizinha. E é preciso que toda loucura seja honrada - não perdoada, pois não há natureza que necessite perdão.
segunda-feira, março 03, 2008
Oração

Deus, dá-me um corpo oco, um mundo feio, com jeito de desamor. Faça com que nós dois - eu e ele - não sejamos nada além de cócegas nos mamilos e pêlos da nuca em pé. Como eu queria, Deus, não ter esse coração que conversa comigo todas as noites como se fosse gente, e esse peito que, quando não é castigo, é castigado: esse peito que é negrinho no tronco, escravo, chicoteado peito de mulher. Ai, como eu queria, Meu Deus, como eu queria! que tudo fosse casa dos horrores. Que a vida exalasse cheiro de algum carnavalesco sangue sobre pêlos púbicos de amantes-cadáveres. Como eu queria que nós dois - eu e ele - não precisássemos nos esconder da verdadeira paixão, pois paixão não haveria neste mundo feio pelo qual eu rogo, neste mundo que eu queria. Meu Deus, como eu queria ter essa minha escandalosa agonia, típica de quem ama bichos - bochechas rosadas, lindas vontades de suicídio, língua áspera de esperar chupando litros de lágrima no travesseiro - essa minha escandalosa agonia escondida debaixo do tapete, muda, como sujeirinha de pai maquiada: sem grito e sem apelo, sem faxina e sem descoberta. Deus, dá-me essa coisa que eu tenho, essa coisa imensa e inoportuna, de uma outra forma: veste, Deus, amor de desejo, espírito de carne. Carne apenas, nada mais que isso. Amém.
Foto: Bruno Vieira.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
Árida
O meu amor quer me ver pálida. Quer que eu seja mísero pedaço de carne flácida. Quer que eu carregue nos olhos este imenso buraco estranho que apenas a agonia cava. O meu amor quer me ver impregnada de coisa bruta. Quer me ver bruxa na fogueira. Quer me ver puta no centro da cidade - lambendo o veneno que me arde, no berço chupando o dedo, bebendo cólera aos litros. O meu amor é o meu inimigo - beija-me só para me ver sentir o beijo se partir, fecunda-me só para me ver abortar. Ah, o meu amor: de tanta chuva durante a noite, minha terra amanhece infértil; de tanta mão de afeto, minha flor despetala; de tanto jorro masculino, meu gozo é chama de dor. Este amor, que de tanto amor, não é amor mais não - é secura depois da inundação.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
O Monstro
Não sei porque escrevo. Talvez eu escreva porque, para mim, esta poesia - que, por vezes, cheira mal - é a única arma - a espada que me resta - para lutar contra O Monstro. Esse Monstro habita a caverna que eu carrego dentro de mim, é dentro dela que ele permanece: quieto em sua obscuridade, mudo e santo: santo no altar dos sem-deus - feito puta doce escorrendo pelo queixo. Mas às vezes, muitas vezes, O Monstro teima em saltar para fora da caverna, teima em conhecer o mundo, e não percebe o quanto é inadequado para este mundo, e é nesta hora que eu tenho de escrever: palavra como defesa. O Monstro me parece aqueles tios gordos, desajeitados, bobos, que não percebem o quanto estão sendo a-me-a-ça-do-res quando, brincando, pulam em cima do sobrinho pequeno ou da irmã magricela. É cheio de uma inocência quase feminina, quase floral, não tem intenção de machucar, mas isso não o livra de ser pesado, inoportuno e imensamente perigoso. Nos dias em que O Monstro mostra a cara, eu sou menina temendo a escuridão do orfanato, e tudo o que eu tenho é minha poesia, instrumento cortante levado em minhas mãos agora cristãs, nestas mãos que sempre foram infiéis e desacreditadas - agora eu tenho de crer em alguma coisa maior que este buraco que O Monstro me cava no peito. Ah, como era bom o gosto que dava na boca quando Monstro não havia, nem nada. Era uma surra gostosa, um ato alérgico, uma pílula perigosa. Era o nunca vôo, e como era bom o não saber voar. Eu estava mais perto das horas, eu era o ponteiro dos minutos, ali, incrédulo o bastante para fazer passar o tempo e não doer, não arranhar. De repente, chega este grandiosíssimo bicho, de felicidade ordinária, vestindo pêlos feios, todo curioso em relação a vida, e me transformando nesta pobre senhora crente em superioridades e completamente escrava de uma poesia dura que, por vezes, cheira a mofo. Eu, que sempre fui mulherzinha atea, agora tenho de crer em alguma coisa maior que este buraco que O Monstro me cava no peito. Aquele cheiro ímpio que eu exalava - doutrina erguida com força bruta: amor era carne, carne era Deus -, aquele cheiro se perdeu dentro de mim. Aquele amor sem alma - cuspe de um vulcão: amor suado, sólida exacerbação -, aquele amor me destruiu a morada. E hoje está tudo dissipado. Minha paixão, que antes tinha o gosto raro de fazer língua derreter, estourou silenciosamente: o suspiro d'O Monstro é a minha explosão.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Carta ao grande amor
Quando há noites de luas cheias de ti, o meu corpo é filho da mais pura matéria de brisa; é de brisa o meu corpo quando há noites de emoção: eu só sei ser pássaro em paz. Mas foste embora, sempre vais, e é por isso que eu te escrevo - nua e tua -, para que saibas que mesmo longe - n'alguma ilha amarga por roubar tua carne dos meus dentes -, mesmo longe, estás cá dentro dos meus órgãos cálidos. Tu me entregas como presente noturno, dentro de uma caixinha cor-de-rosa, este tipo de miséria: de onde eu chupo o que me alimenta, um gosto de cólera na boca. Desta miséria me faço mísero pedaço de gente, depois ergo-me para além da miséria, em ordem crescente, e renasço.
Quando não há as noites de luas cheias de ti, bebo deste copo cheio de nada. Líquido com sabor de vazio. "Por favor, uma dose de ausência": eu tomo ar. Nestas noites de caverna desabitada, incendeio-me. Sinto-me quase viúva - jovem, sem roupa -, uma viuvinha ardendo e sorrindo, ardendo e chorando sobre a cama, sozinha. "Cadê meu homem? Cadê meu cheiro de agridoce, o meu senhor?". Enquanto tremo, vivo a legítima dor das mulheres que amam. Noite dessas, menstruei dissabor.
Penso que talvez a tua língua volte e tudo seja como se nunca tivesse sido, ou não, penso que talvez tua língua continue molhando os outros mamilos que não os meus, afinal, tu, meu amor, és mesmo um lobo, lobo, lobo. Como eu te odeio nas noites de solidão! Obscuro-me. Quase não me reconheço diante do espelho, fazes com que eu me perca de mim. Deitada, despida de roupas e coberta de medos, eu danço o balé dos desesperados, o corpo é a labareda da alma, e eu te espero, homem, mesmo sabendo que não vais chegar.
O meu amor por ti é assim esta imensa ambiguidade. Não sei se quero sorrir ou lavar o chão de pranto bruto, apenas sei que me encontro em cima de um parapeito, olhando para as vidas lá embaixo e implorando ao meu peito que pare de morrer assim, um pouquinho a cada dia: o desejo de morrer ligeiro para morrer nova e bonita, como ainda sou. Escrevo-te para que vejas o quanto és mau. Escrevo-te para que vejas o quanto és bom, pois mau que és, fazes com que eu seja boa, e não há maior bondade que a de ser mau para que a outra pessoa seja assim boa. Boa, nova e bonita, como ainda sou. Boa, nova, bonita e desesperada.
Nas noites em que não há as tuas várias bocas beijando os meus olhos e cabelos, eu sou órfã. Ou melhor: sou estéril; sou floresta devastada. Lembro-me bem, querido, da noite em que comeste o meu dentro: as entranhas escorrendo pelo teu queixo, as vísceras devoradas friamente: como eras bicho! Aliás, acabo de recordar: comeste a minha fertilidade. Pedacinhos de placenta entre os dentes, útero aos pedaços, ovários, vários. Comeste a minha fertilidade, e desde então, não sei mais ser a mãe de mim.
A tua poltrona está vazia. Quando voltares - qual bicho de estimação, minha esperança é sempre alimentada - furarei teus olhos. Sim, para que jamais te percas de mim ao enxergar essa tanta vida fora de casa. Desejo ser o teu cão, o cão que te guia e o cão que te segue, o cão que te vive e o cão que te mata. E quando voltares, tudo será diferente, será eu o teu homem quente, o amantíssimo mau e descarado, pois furarei os teus olhos e, na hora do gozo, congelarei teu uivo louco e fecharei as minhas portas para que fiques, para sempre, dentro de mim.
Quando não há as noites de luas cheias de ti, bebo deste copo cheio de nada. Líquido com sabor de vazio. "Por favor, uma dose de ausência": eu tomo ar. Nestas noites de caverna desabitada, incendeio-me. Sinto-me quase viúva - jovem, sem roupa -, uma viuvinha ardendo e sorrindo, ardendo e chorando sobre a cama, sozinha. "Cadê meu homem? Cadê meu cheiro de agridoce, o meu senhor?". Enquanto tremo, vivo a legítima dor das mulheres que amam. Noite dessas, menstruei dissabor.
Penso que talvez a tua língua volte e tudo seja como se nunca tivesse sido, ou não, penso que talvez tua língua continue molhando os outros mamilos que não os meus, afinal, tu, meu amor, és mesmo um lobo, lobo, lobo. Como eu te odeio nas noites de solidão! Obscuro-me. Quase não me reconheço diante do espelho, fazes com que eu me perca de mim. Deitada, despida de roupas e coberta de medos, eu danço o balé dos desesperados, o corpo é a labareda da alma, e eu te espero, homem, mesmo sabendo que não vais chegar.
O meu amor por ti é assim esta imensa ambiguidade. Não sei se quero sorrir ou lavar o chão de pranto bruto, apenas sei que me encontro em cima de um parapeito, olhando para as vidas lá embaixo e implorando ao meu peito que pare de morrer assim, um pouquinho a cada dia: o desejo de morrer ligeiro para morrer nova e bonita, como ainda sou. Escrevo-te para que vejas o quanto és mau. Escrevo-te para que vejas o quanto és bom, pois mau que és, fazes com que eu seja boa, e não há maior bondade que a de ser mau para que a outra pessoa seja assim boa. Boa, nova e bonita, como ainda sou. Boa, nova, bonita e desesperada.
Nas noites em que não há as tuas várias bocas beijando os meus olhos e cabelos, eu sou órfã. Ou melhor: sou estéril; sou floresta devastada. Lembro-me bem, querido, da noite em que comeste o meu dentro: as entranhas escorrendo pelo teu queixo, as vísceras devoradas friamente: como eras bicho! Aliás, acabo de recordar: comeste a minha fertilidade. Pedacinhos de placenta entre os dentes, útero aos pedaços, ovários, vários. Comeste a minha fertilidade, e desde então, não sei mais ser a mãe de mim.
A tua poltrona está vazia. Quando voltares - qual bicho de estimação, minha esperança é sempre alimentada - furarei teus olhos. Sim, para que jamais te percas de mim ao enxergar essa tanta vida fora de casa. Desejo ser o teu cão, o cão que te guia e o cão que te segue, o cão que te vive e o cão que te mata. E quando voltares, tudo será diferente, será eu o teu homem quente, o amantíssimo mau e descarado, pois furarei os teus olhos e, na hora do gozo, congelarei teu uivo louco e fecharei as minhas portas para que fiques, para sempre, dentro de mim.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
quarta-feira de cinzas

Era como se eu gozasse pálido, parisse vento, apenas por necessidade de praticar humanidade. Ato alérgico, só para que eu não usasse o colar de contas como instrumento de suicídio. Apenas a vontade de espantar o jejum, porque somos todos bichos, bichos, bichos... Não houve amor. Não houve o desejar-aquilo-que-não-se-tem, tampouco houve o já-se-tem-tudo, já-se-é-repleta. Não houve o ápice, as estrelas ardentes no céu-da-boca, a víbora comendo o tornozelo, as pernas, o sexo, os cabelos..., não houve sequer o leão escondido na barriga, nem a carne flamejante aos pedaços. Não houve os filhos habitando em cambalhotas a pacata vida do ventre: não houve nada pelo qual eu sempre clamei. Se somos todos filhos de um amor breve e suado, não houve o que fizesse pingar, como se eu transpirasse pó. As pessoas me soavam miseráveis, ainda que gostosas em sua miséria, e eu as penetrava devagar na esperança de qualquer arrepio. Eu procurava nestas crianças douradas qualquer susto com o qual eu pudesse viver eternamente, e me era dado em troca flores murchas quase despetaladas: o mundo era um imenso coito interrompido. Misericórdia, cego deus, à estes meninos e meninas que ainda comem esta prostituta coberta de lantejoulas de nome Carnaval. Eu não. Eu como a minha própria placenta.
sábado, janeiro 19, 2008
CÁ
Entre nós,
a mãe que nunca pariu,
o mar posto em chama.
Eu sou Terra.
Escuta, Céu, a voz de quem ama:
se um dia
eu não puder gerar teu filho,
não reclama:
foi tua chuva que fez
meu ventre virar lama.
a mãe que nunca pariu,
o mar posto em chama.
Eu sou Terra.
Escuta, Céu, a voz de quem ama:
se um dia
eu não puder gerar teu filho,
não reclama:
foi tua chuva que fez
meu ventre virar lama.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
?
Nunca saberei me mostrar inteira,
pois sempre tive
a carne flamejante aos pedaços.
Não sou o que sou hoje e soa,
sou hoje o que fui e o que serei
- cintilantes fragmentos de cetim
e boca vermelha rubricada na veia dos homens.
Espalho-me por entre os dedos
da brutalidade da qual me fantasio e,
vez ou outra,
troco de roupa para trocar de beleza,
como alguém que necessita urgentemente
encontrar-se nas profundezas
d'algum mar indecifrável.
Embaçada imagem minha diante do espelho,
distante de mim está minha legítima morada.
Que vestido habito, que anéis?
Que eu fui eu, que eu serei?
Eu... eu sôo pergunta.
pois sempre tive
a carne flamejante aos pedaços.
Não sou o que sou hoje e soa,
sou hoje o que fui e o que serei
- cintilantes fragmentos de cetim
e boca vermelha rubricada na veia dos homens.
Espalho-me por entre os dedos
da brutalidade da qual me fantasio e,
vez ou outra,
troco de roupa para trocar de beleza,
como alguém que necessita urgentemente
encontrar-se nas profundezas
d'algum mar indecifrável.
Embaçada imagem minha diante do espelho,
distante de mim está minha legítima morada.
Que vestido habito, que anéis?
Que eu fui eu, que eu serei?
Eu... eu sôo pergunta.
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Incêndio
Quando estive presa
na torre mais alta
do castelo da bruxa má,
o homenzinho louro
quis, gentilmente,
salvar-me.
Trouxe-me pedras raras,
contou-me suas histórias de valência,
falou-me cor-de-rosa
sobre o mundo desconhecido,
beijou-me a testa cautelosamente.
Fez-se príncipe lindo para mim
- logo para mim que,
não sabia ele,
cultivava o desgosto pelo belo
desde quando se perdeu minha coroa
nas tantas noites,
genuinamente prazerosas,
que tive com o dragão mau e feio,
mas cujas narinas incendiariam o país.
na torre mais alta
do castelo da bruxa má,
o homenzinho louro
quis, gentilmente,
salvar-me.
Trouxe-me pedras raras,
contou-me suas histórias de valência,
falou-me cor-de-rosa
sobre o mundo desconhecido,
beijou-me a testa cautelosamente.
Fez-se príncipe lindo para mim
- logo para mim que,
não sabia ele,
cultivava o desgosto pelo belo
desde quando se perdeu minha coroa
nas tantas noites,
genuinamente prazerosas,
que tive com o dragão mau e feio,
mas cujas narinas incendiariam o país.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
Viborazinha
Eu quero a imoralidade
de um amor cheio de doçuras.
Um amor que de tão doce,
amargue o céu de minha boca
quando houver beijos-luz.
E que se perpetue santo
em sua árdua existência
humanamente má.
Eu quero a sordidez
de um amor imaculado.
O amor que me será
a freira jovem e saudável:
onde há beleza sonegada;
o amor que me será
a negra batina do padre:
onde há desejo oculto.
Eu quero a fidelidade
de um amor traiçoeiro.
Um amor violento
nos campos serenos.
Entre as flores virginais,
o desfloramento;
entre a paisagem Divina,
o estupro.
Eu quero chupar, feliz,
o veneno de um amor-víbora.
de um amor cheio de doçuras.
Um amor que de tão doce,
amargue o céu de minha boca
quando houver beijos-luz.
E que se perpetue santo
em sua árdua existência
humanamente má.
Eu quero a sordidez
de um amor imaculado.
O amor que me será
a freira jovem e saudável:
onde há beleza sonegada;
o amor que me será
a negra batina do padre:
onde há desejo oculto.
Eu quero a fidelidade
de um amor traiçoeiro.
Um amor violento
nos campos serenos.
Entre as flores virginais,
o desfloramento;
entre a paisagem Divina,
o estupro.
Eu quero chupar, feliz,
o veneno de um amor-víbora.
quarta-feira, novembro 28, 2007
Cão Covarde
Só uma força maior que eu para conseguir me fazer voltar ao meio do mundo de mim. Porque eu ando me arrastando pela sala de casa como se tivesse bolhas de chumbo enraizadas em meus pés. Eu me alimento de um cansaço voluptuoso e vermelho, daquele tipo de cansaço que a gente teme e lamenta e chora, mas, no fundo, é tomado por uma linda e loura vontade de contemplação. Um cansaço amante às escondidas. Digo à disposição: "Largarei o cansaço!", digo ao cansaço: "Largarei, para sempre, a disposição", e assim, homem que sou, na medida do possível, vou mantendo as duas: mulher e amante, no ritmo de quem caminha em direção à forca.
Apenas um terceiro sentimento me fará voltar ao mais que humano em mim, pois essa relação ilícita com o cansaço, essas mentiras contadas à disposição não estão me servindo de abrigo. Preciso urgentemente de um útero quente aonde eu me deite macio e não me arraste - muito menos corra! Preciso urgentemente armar o circo e provocar o choque: descobrir-me nu, no centro de tudo, tendo em mãos uma coisa maciça à qual os homens costumam dar o nome de coragem. E esta matéria peluda e rosnenta que tenho agora, o que é? Um cão? Coragem, seu cão covarde!
Preciso muito de um leve tudo: um leve coração pulsante, uma leve casca dolorida, uma leve queda de escada, um leve amor errante, um leve instante de solidão. Preciso muito de um leve momento habitando as cavernas do dissabor - porque nada é mais saboroso que o legítimo dissabor escorrendo pelo canto da boca frutificando o cítrico. Eu não conheço as palavras modernas que têm o poder de transformar as realidades humanas, não conheço sequer o romantismo exacerbado que salta dos olhos em noite de lua-cheia. Por isso, afirmo: preciso muito de um leve ápice de misturas heterogéneas, aonde o sonho e a realidade se fundirão. Preciso de estrelas ardentes no céu-da-boca.
Essa vontade de cultivar o absurdo - o absurdo como música -, deixando de lado qualquer resquício de cansaço e disposição, é o que eu chamo de coragem. Essa coragem - novo sentimento bruto, força maior que eu, que me fará voltar ao meio do mundo de mim - é o que eu chamo de inspiração.
Apenas um terceiro sentimento me fará voltar ao mais que humano em mim, pois essa relação ilícita com o cansaço, essas mentiras contadas à disposição não estão me servindo de abrigo. Preciso urgentemente de um útero quente aonde eu me deite macio e não me arraste - muito menos corra! Preciso urgentemente armar o circo e provocar o choque: descobrir-me nu, no centro de tudo, tendo em mãos uma coisa maciça à qual os homens costumam dar o nome de coragem. E esta matéria peluda e rosnenta que tenho agora, o que é? Um cão? Coragem, seu cão covarde!
Preciso muito de um leve tudo: um leve coração pulsante, uma leve casca dolorida, uma leve queda de escada, um leve amor errante, um leve instante de solidão. Preciso muito de um leve momento habitando as cavernas do dissabor - porque nada é mais saboroso que o legítimo dissabor escorrendo pelo canto da boca frutificando o cítrico. Eu não conheço as palavras modernas que têm o poder de transformar as realidades humanas, não conheço sequer o romantismo exacerbado que salta dos olhos em noite de lua-cheia. Por isso, afirmo: preciso muito de um leve ápice de misturas heterogéneas, aonde o sonho e a realidade se fundirão. Preciso de estrelas ardentes no céu-da-boca.
Essa vontade de cultivar o absurdo - o absurdo como música -, deixando de lado qualquer resquício de cansaço e disposição, é o que eu chamo de coragem. Essa coragem - novo sentimento bruto, força maior que eu, que me fará voltar ao meio do mundo de mim - é o que eu chamo de inspiração.
segunda-feira, novembro 26, 2007
Gruta
Encontro-me nas profundezas
d'algum mar indecifrável.
Nem eu me conheço toda:
parte de mim quer alçar vôo,
parte de mim quer pisar firme.
Sou completa n'alguma coisa
que é gruta de mistérios.
E os animais de mim
são todos quase invisíveis.
Sou sempre duplamente
- possuo duas barrigas,
cada qual com seus filhos-segredos.
Anoiteço bruta
e amanheço límpida;
pareço livre e nua,
mas ainda existe em mim
algum centímetro de medo.
Não tentes me enxergar, cheirar, ouvir,
tatear ou provar de meu dulcíssimo mel:
sou toda a dormência dos sentidos dos homens.
d'algum mar indecifrável.
Nem eu me conheço toda:
parte de mim quer alçar vôo,
parte de mim quer pisar firme.
Sou completa n'alguma coisa
que é gruta de mistérios.
E os animais de mim
são todos quase invisíveis.
Sou sempre duplamente
- possuo duas barrigas,
cada qual com seus filhos-segredos.
Anoiteço bruta
e amanheço límpida;
pareço livre e nua,
mas ainda existe em mim
algum centímetro de medo.
Não tentes me enxergar, cheirar, ouvir,
tatear ou provar de meu dulcíssimo mel:
sou toda a dormência dos sentidos dos homens.
sábado, novembro 24, 2007
Eu Viúva
Acaba agora, amor, esta história grandiosamente interessante, de um charme intenso por ter sido sempre a história de um amor aos pedaços. Nosso amor como um cego que requer todos os cuidados do mundo para não cair do precipício - nosso amor que sempre esteve à beira do precipício. Nosso amor como flor pálida exalando cheiro de qualquer coisa bruta - nosso amor que sempre usou da brutalidade dos fracos, órfãos e mendigos, para se proteger do edema de glote que poderia ser fatal. Nosso amor que jogava xadrez por ter nascido com um sopro no coração.
Eu entendo a vida como algo tão quase programado, que seria em vão a tentativa de evitar o fim - o morcego sempre vem chupar o nosso sangue -, porque meu cepticismo não me deixa acreditar que o que dura, dura mais de uma vida. A nossa eternidade e plenitude tinha de ter algum sentido concreto, como quando pegamos a xícara e bebemos qualquer coisa de dentro dela até a última gota, e depois de alguns minutos, percebemo-nos submetidos à uma forte alergia ao líquido. Nós nos submetemos à esta alergia cruel e só agora fomos capazes de parar de beber deste amor - amor acessível e deliciosamente ressacado - amor como cerveja.
As horas vão passando e eu estou ficando com o mal cheiro deste amor-defunto etranhado em minha pele, e me falta a grande coragem de sepultar de vez esta história. Eu não desejo sequer a lembrança desta coisa quase maciça que, um dia, teve vida, embora eu saiba que nos próximos dias, cobrirei-me com um negro véu - tal qual uma viuvinha - e chorarei ajoelhada diante do seu túmulo. Mas isto não é uma carta de despedida, isto é, sem dúvida, uma carta de exorcismo de um sentimento que não pode mais existir - ou dos brevíssimos e suados fatos nos quais esse sentimento se perpetuou em sua árdua existência. Somos todos filhos da existência de um amor breve e suado.
Querido, escuta-te, observa-te, alimenta-te de tua morte, pois é em tua morte que vais renascer, como a segunda tentativa de fecundação de uma mãe que sofreu um aborto. Podes crer, amor: a vida é mística demais em seu cepticismo, e ela nos pregará peças enquanto estivermos respirando. Respira, querido, uma derradeira vez, dentro de mim! Pois a nossa história acaba agora: no instante em que esse pedaço obtuso de coisa mágica se incorpora ao pedaço obscuro de coisa trágica.
Eu entendo a vida como algo tão quase programado, que seria em vão a tentativa de evitar o fim - o morcego sempre vem chupar o nosso sangue -, porque meu cepticismo não me deixa acreditar que o que dura, dura mais de uma vida. A nossa eternidade e plenitude tinha de ter algum sentido concreto, como quando pegamos a xícara e bebemos qualquer coisa de dentro dela até a última gota, e depois de alguns minutos, percebemo-nos submetidos à uma forte alergia ao líquido. Nós nos submetemos à esta alergia cruel e só agora fomos capazes de parar de beber deste amor - amor acessível e deliciosamente ressacado - amor como cerveja.
As horas vão passando e eu estou ficando com o mal cheiro deste amor-defunto etranhado em minha pele, e me falta a grande coragem de sepultar de vez esta história. Eu não desejo sequer a lembrança desta coisa quase maciça que, um dia, teve vida, embora eu saiba que nos próximos dias, cobrirei-me com um negro véu - tal qual uma viuvinha - e chorarei ajoelhada diante do seu túmulo. Mas isto não é uma carta de despedida, isto é, sem dúvida, uma carta de exorcismo de um sentimento que não pode mais existir - ou dos brevíssimos e suados fatos nos quais esse sentimento se perpetuou em sua árdua existência. Somos todos filhos da existência de um amor breve e suado.
Querido, escuta-te, observa-te, alimenta-te de tua morte, pois é em tua morte que vais renascer, como a segunda tentativa de fecundação de uma mãe que sofreu um aborto. Podes crer, amor: a vida é mística demais em seu cepticismo, e ela nos pregará peças enquanto estivermos respirando. Respira, querido, uma derradeira vez, dentro de mim! Pois a nossa história acaba agora: no instante em que esse pedaço obtuso de coisa mágica se incorpora ao pedaço obscuro de coisa trágica.
terça-feira, novembro 06, 2007
Eclipse
Estou sentindo
uma extraordinária vontade
de me comer,
parte por parte.
Beber-me até a última
gota de sangue;
devorar-me até não restar
sequer a sombra de minhas vísceras
- como um astro some
quando há eclipse. serás
o observador de meu desaparecimento.
Uma vontade não de morte,
mas da fração de tempo que há
entre a vida e a morte,
aquele nada
que não é aborto
nem é fecundação
- como quando o mágico do circo
faz sumir a mulher no caixote.
Quero conhecer de perto
este absurdo que é
devolver-se ao próprio ventre,
como se antes nada existisse
e como se o depois fosse um outro mundo,
longe e inatingível.
Estou sentindo
uma extraordinária vontade
de me tornar miúda, tão miúda,
a ponto de ser aquele pedaço
de coisa imperceptível
- nada de mágico, nada de trágico,
apenas a beleza da não-existência.
Devorar-me tanto, devorar-me tão completamente,
a ponto de me tornar
o meu próprio conteúdo gástrico.
E depois, só depois
- já uma outra mulher -,
vomitar-me toda,
em noite de lua-cheia,
uivando aos homens:
"Cheguei"!
uma extraordinária vontade
de me comer,
parte por parte.
Beber-me até a última
gota de sangue;
devorar-me até não restar
sequer a sombra de minhas vísceras
- como um astro some
quando há eclipse. serás
o observador de meu desaparecimento.
Uma vontade não de morte,
mas da fração de tempo que há
entre a vida e a morte,
aquele nada
que não é aborto
nem é fecundação
- como quando o mágico do circo
faz sumir a mulher no caixote.
Quero conhecer de perto
este absurdo que é
devolver-se ao próprio ventre,
como se antes nada existisse
e como se o depois fosse um outro mundo,
longe e inatingível.
Estou sentindo
uma extraordinária vontade
de me tornar miúda, tão miúda,
a ponto de ser aquele pedaço
de coisa imperceptível
- nada de mágico, nada de trágico,
apenas a beleza da não-existência.
Devorar-me tanto, devorar-me tão completamente,
a ponto de me tornar
o meu próprio conteúdo gástrico.
E depois, só depois
- já uma outra mulher -,
vomitar-me toda,
em noite de lua-cheia,
uivando aos homens:
"Cheguei"!
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