segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Árida

O meu amor quer me ver pálida. Quer que eu seja mísero pedaço de carne flácida. Quer que eu carregue nos olhos este imenso buraco estranho que apenas a agonia cava. O meu amor quer me ver impregnada de coisa bruta. Quer me ver bruxa na fogueira. Quer me ver puta no centro da cidade - lambendo o veneno que me arde, no berço chupando o dedo, bebendo cólera aos litros. O meu amor é o meu inimigo - beija-me só para me ver sentir o beijo se partir, fecunda-me só para me ver abortar. Ah, o meu amor: de tanta chuva durante a noite, minha terra amanhece infértil; de tanta mão de afeto, minha flor despetala; de tanto jorro masculino, meu gozo é chama de dor. Este amor, que de tanto amor, não é amor mais não - é secura depois da inundação.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O Monstro

Não sei porque escrevo. Talvez eu escreva porque, para mim, esta poesia - que, por vezes, cheira mal - é a única arma - a espada que me resta - para lutar contra O Monstro. Esse Monstro habita a caverna que eu carrego dentro de mim, é dentro dela que ele permanece: quieto em sua obscuridade, mudo e santo: santo no altar dos sem-deus - feito puta doce escorrendo pelo queixo. Mas às vezes, muitas vezes, O Monstro teima em saltar para fora da caverna, teima em conhecer o mundo, e não percebe o quanto é inadequado para este mundo, e é nesta hora que eu tenho de escrever: palavra como defesa. O Monstro me parece aqueles tios gordos, desajeitados, bobos, que não percebem o quanto estão sendo a-me-a-ça-do-res quando, brincando, pulam em cima do sobrinho pequeno ou da irmã magricela. É cheio de uma inocência quase feminina, quase floral, não tem intenção de machucar, mas isso não o livra de ser pesado, inoportuno e imensamente perigoso. Nos dias em que O Monstro mostra a cara, eu sou menina temendo a escuridão do orfanato, e tudo o que eu tenho é minha poesia, instrumento cortante levado em minhas mãos agora cristãs, nestas mãos que sempre foram infiéis e desacreditadas - agora eu tenho de crer em alguma coisa maior que este buraco que O Monstro me cava no peito. Ah, como era bom o gosto que dava na boca quando Monstro não havia, nem nada. Era uma surra gostosa, um ato alérgico, uma pílula perigosa. Era o nunca vôo, e como era bom o não saber voar. Eu estava mais perto das horas, eu era o ponteiro dos minutos, ali, incrédulo o bastante para fazer passar o tempo e não doer, não arranhar. De repente, chega este grandiosíssimo bicho, de felicidade ordinária, vestindo pêlos feios, todo curioso em relação a vida, e me transformando nesta pobre senhora crente em superioridades e completamente escrava de uma poesia dura que, por vezes, cheira a mofo. Eu, que sempre fui mulherzinha atea, agora tenho de crer em alguma coisa maior que este buraco que O Monstro me cava no peito. Aquele cheiro ímpio que eu exalava - doutrina erguida com força bruta: amor era carne, carne era Deus -, aquele cheiro se perdeu dentro de mim. Aquele amor sem alma - cuspe de um vulcão: amor suado, sólida exacerbação -, aquele amor me destruiu a morada. E hoje está tudo dissipado. Minha paixão, que antes tinha o gosto raro de fazer língua derreter, estourou silenciosamente: o suspiro d'O Monstro é a minha explosão.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Carta ao grande amor

Quando há noites de luas cheias de ti, o meu corpo é filho da mais pura matéria de brisa; é de brisa o meu corpo quando há noites de emoção: eu só sei ser pássaro em paz. Mas foste embora, sempre vais, e é por isso que eu te escrevo - nua e tua -, para que saibas que mesmo longe - n'alguma ilha amarga por roubar tua carne dos meus dentes -, mesmo longe, estás cá dentro dos meus órgãos cálidos. Tu me entregas como presente noturno, dentro de uma caixinha cor-de-rosa, este tipo de miséria: de onde eu chupo o que me alimenta, um gosto de cólera na boca. Desta miséria me faço mísero pedaço de gente, depois ergo-me para além da miséria, em ordem crescente, e renasço.

Quando não há as noites de luas cheias de ti, bebo deste copo cheio de nada. Líquido com sabor de vazio. "Por favor, uma dose de ausência": eu tomo ar. Nestas noites de caverna desabitada, incendeio-me. Sinto-me quase viúva - jovem, sem roupa -, uma viuvinha ardendo e sorrindo, ardendo e chorando sobre a cama, sozinha. "Cadê meu homem? Cadê meu cheiro de agridoce, o meu senhor?". Enquanto tremo, vivo a legítima dor das mulheres que amam. Noite dessas, menstruei dissabor.

Penso que talvez a tua língua volte e tudo seja como se nunca tivesse sido, ou não, penso que talvez tua língua continue molhando os outros mamilos que não os meus, afinal, tu, meu amor, és mesmo um lobo, lobo, lobo. Como eu te odeio nas noites de solidão! Obscuro-me. Quase não me reconheço diante do espelho, fazes com que eu me perca de mim. Deitada, despida de roupas e coberta de medos, eu danço o balé dos desesperados, o corpo é a labareda da alma, e eu te espero, homem, mesmo sabendo que não vais chegar.

O meu amor por ti é assim esta imensa ambiguidade. Não sei se quero sorrir ou lavar o chão de pranto bruto, apenas sei que me encontro em cima de um parapeito, olhando para as vidas lá embaixo e implorando ao meu peito que pare de morrer assim, um pouquinho a cada dia: o desejo de morrer ligeiro para morrer nova e bonita, como ainda sou. Escrevo-te para que vejas o quanto és mau. Escrevo-te para que vejas o quanto és bom, pois mau que és, fazes com que eu seja boa, e não há maior bondade que a de ser mau para que a outra pessoa seja assim boa. Boa, nova e bonita, como ainda sou. Boa, nova, bonita e desesperada.

Nas noites em que não há as tuas várias bocas beijando os meus olhos e cabelos, eu sou órfã. Ou melhor: sou estéril; sou floresta devastada. Lembro-me bem, querido, da noite em que comeste o meu dentro: as entranhas escorrendo pelo teu queixo, as vísceras devoradas friamente: como eras bicho! Aliás, acabo de recordar: comeste a minha fertilidade. Pedacinhos de placenta entre os dentes, útero aos pedaços, ovários, vários. Comeste a minha fertilidade, e desde então, não sei mais ser a mãe de mim.

A tua poltrona está vazia. Quando voltares - qual bicho de estimação, minha esperança é sempre alimentada - furarei teus olhos. Sim, para que jamais te percas de mim ao enxergar essa tanta vida fora de casa. Desejo ser o teu cão, o cão que te guia e o cão que te segue, o cão que te vive e o cão que te mata. E quando voltares, tudo será diferente, será eu o teu homem quente, o amantíssimo mau e descarado, pois furarei os teus olhos e, na hora do gozo, congelarei teu uivo louco e fecharei as minhas portas para que fiques, para sempre, dentro de mim.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

quarta-feira de cinzas


Era como se eu gozasse pálido, parisse vento, apenas por necessidade de praticar humanidade. Ato alérgico, só para que eu não usasse o colar de contas como instrumento de suicídio. Apenas a vontade de espantar o jejum, porque somos todos bichos, bichos, bichos... Não houve amor. Não houve o desejar-aquilo-que-não-se-tem, tampouco houve o já-se-tem-tudo, já-se-é-repleta. Não houve o ápice, as estrelas ardentes no céu-da-boca, a víbora comendo o tornozelo, as pernas, o sexo, os cabelos..., não houve sequer o leão escondido na barriga, nem a carne flamejante aos pedaços. Não houve os filhos habitando em cambalhotas a pacata vida do ventre: não houve nada pelo qual eu sempre clamei. Se somos todos filhos de um amor breve e suado, não houve o que fizesse pingar, como se eu transpirasse pó. As pessoas me soavam miseráveis, ainda que gostosas em sua miséria, e eu as penetrava devagar na esperança de qualquer arrepio. Eu procurava nestas crianças douradas qualquer susto com o qual eu pudesse viver eternamente, e me era dado em troca flores murchas quase despetaladas: o mundo era um imenso coito interrompido. Misericórdia, cego deus, à estes meninos e meninas que ainda comem esta prostituta coberta de lantejoulas de nome Carnaval. Eu não. Eu como a minha própria placenta.

sábado, janeiro 19, 2008

Entre nós,

a mãe que nunca pariu,
o mar posto em chama.

Eu sou Terra.
Escuta, Céu, a voz de quem ama:

se um dia
eu não puder gerar teu filho,
não reclama:
foi tua chuva que fez
meu ventre virar lama.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

?

Nunca saberei me mostrar inteira,
pois sempre tive
a carne flamejante aos pedaços.
Não sou o que sou hoje e soa,
sou hoje o que fui e o que serei
- cintilantes fragmentos de cetim
e boca vermelha rubricada na veia dos homens.
Espalho-me por entre os dedos
da brutalidade da qual me fantasio e,
vez ou outra,
troco de roupa para trocar de beleza,
como alguém que necessita urgentemente
encontrar-se nas profundezas
d'algum mar indecifrável.
Embaçada imagem minha diante do espelho,
distante de mim está minha legítima morada.
Que vestido habito, que anéis?
Que eu fui eu, que eu serei?
Eu... eu sôo pergunta.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Incêndio

Quando estive presa
na torre mais alta
do castelo da bruxa má,
o homenzinho louro
quis, gentilmente,
salvar-me.
Trouxe-me pedras raras,
contou-me suas histórias de valência,
falou-me cor-de-rosa
sobre o mundo desconhecido,
beijou-me a testa cautelosamente.
Fez-se príncipe lindo para mim
- logo para mim que,
não sabia ele,
cultivava o desgosto pelo belo
desde quando se perdeu minha coroa
nas tantas noites,
genuinamente prazerosas,
que tive com o dragão mau e feio,
mas cujas narinas incendiariam o país.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Viborazinha

Eu quero a imoralidade
de um amor cheio de doçuras.
Um amor que de tão doce,
amargue o céu de minha boca
quando houver beijos-luz.
E que se perpetue santo
em sua árdua existência
humanamente má.
Eu quero a sordidez
de um amor imaculado.
O amor que me será
a freira jovem e saudável:
onde há beleza sonegada;
o amor que me será
a negra batina do padre:
onde há desejo oculto.
Eu quero a fidelidade
de um amor traiçoeiro.
Um amor violento
nos campos serenos.
Entre as flores virginais,
o desfloramento;
entre a paisagem Divina,
o estupro.
Eu quero chupar, feliz,
o veneno de um amor-víbora.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Cão Covarde

Só uma força maior que eu para conseguir me fazer voltar ao meio do mundo de mim. Porque eu ando me arrastando pela sala de casa como se tivesse bolhas de chumbo enraizadas em meus pés. Eu me alimento de um cansaço voluptuoso e vermelho, daquele tipo de cansaço que a gente teme e lamenta e chora, mas, no fundo, é tomado por uma linda e loura vontade de contemplação. Um cansaço amante às escondidas. Digo à disposição: "Largarei o cansaço!", digo ao cansaço: "Largarei, para sempre, a disposição", e assim, homem que sou, na medida do possível, vou mantendo as duas: mulher e amante, no ritmo de quem caminha em direção à forca.

Apenas um terceiro sentimento me fará voltar ao mais que humano em mim, pois essa relação ilícita com o cansaço, essas mentiras contadas à disposição não estão me servindo de abrigo. Preciso urgentemente de um útero quente aonde eu me deite macio e não me arraste - muito menos corra! Preciso urgentemente armar o circo e provocar o choque: descobrir-me nu, no centro de tudo, tendo em mãos uma coisa maciça à qual os homens costumam dar o nome de coragem. E esta matéria peluda e rosnenta que tenho agora, o que é? Um cão? Coragem, seu cão covarde!

Preciso muito de um leve tudo: um leve coração pulsante, uma leve casca dolorida, uma leve queda de escada, um leve amor errante, um leve instante de solidão. Preciso muito de um leve momento habitando as cavernas do dissabor - porque nada é mais saboroso que o legítimo dissabor escorrendo pelo canto da boca frutificando o cítrico. Eu não conheço as palavras modernas que têm o poder de transformar as realidades humanas, não conheço sequer o romantismo exacerbado que salta dos olhos em noite de lua-cheia. Por isso, afirmo: preciso muito de um leve ápice de misturas heterogéneas, aonde o sonho e a realidade se fundirão. Preciso de estrelas ardentes no céu-da-boca.

Essa vontade de cultivar o absurdo - o absurdo como música -, deixando de lado qualquer resquício de cansaço e disposição, é o que eu chamo de coragem. Essa coragem - novo sentimento bruto, força maior que eu, que me fará voltar ao meio do mundo de mim - é o que eu chamo de inspiração.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Gruta

Encontro-me nas profundezas
d'algum mar indecifrável.
Nem eu me conheço toda:
parte de mim quer alçar vôo,
parte de mim quer pisar firme.
Sou completa n'alguma coisa
que é gruta de mistérios.
E os animais de mim
são todos quase invisíveis.
Sou sempre duplamente
- possuo duas barrigas,
cada qual com seus filhos-segredos.
Anoiteço bruta
e amanheço límpida;
pareço livre e nua,
mas ainda existe em mim
algum centímetro de medo.
Não tentes me enxergar, cheirar, ouvir,
tatear ou provar de meu dulcíssimo mel:
sou toda a dormência dos sentidos dos homens.

sábado, novembro 24, 2007

Eu Viúva

Acaba agora, amor, esta história grandiosamente interessante, de um charme intenso por ter sido sempre a história de um amor aos pedaços. Nosso amor como um cego que requer todos os cuidados do mundo para não cair do precipício - nosso amor que sempre esteve à beira do precipício. Nosso amor como flor pálida exalando cheiro de qualquer coisa bruta - nosso amor que sempre usou da brutalidade dos fracos, órfãos e mendigos, para se proteger do edema de glote que poderia ser fatal. Nosso amor que jogava xadrez por ter nascido com um sopro no coração.

Eu entendo a vida como algo tão quase programado, que seria em vão a tentativa de evitar o fim - o morcego sempre vem chupar o nosso sangue -, porque meu cepticismo não me deixa acreditar que o que dura, dura mais de uma vida. A nossa eternidade e plenitude tinha de ter algum sentido concreto, como quando pegamos a xícara e bebemos qualquer coisa de dentro dela até a última gota, e depois de alguns minutos, percebemo-nos submetidos à uma forte alergia ao líquido. Nós nos submetemos à esta alergia cruel e só agora fomos capazes de parar de beber deste amor - amor acessível e deliciosamente ressacado - amor como cerveja.

As horas vão passando e eu estou ficando com o mal cheiro deste amor-defunto etranhado em minha pele, e me falta a grande coragem de sepultar de vez esta história. Eu não desejo sequer a lembrança desta coisa quase maciça que, um dia, teve vida, embora eu saiba que nos próximos dias, cobrirei-me com um negro véu - tal qual uma viuvinha - e chorarei ajoelhada diante do seu túmulo. Mas isto não é uma carta de despedida, isto é, sem dúvida, uma carta de exorcismo de um sentimento que não pode mais existir - ou dos brevíssimos e suados fatos nos quais esse sentimento se perpetuou em sua árdua existência. Somos todos filhos da existência de um amor breve e suado.

Querido, escuta-te, observa-te, alimenta-te de tua morte, pois é em tua morte que vais renascer, como a segunda tentativa de fecundação de uma mãe que sofreu um aborto. Podes crer, amor: a vida é mística demais em seu cepticismo, e ela nos pregará peças enquanto estivermos respirando. Respira, querido, uma derradeira vez, dentro de mim! Pois a nossa história acaba agora: no instante em que esse pedaço obtuso de coisa mágica se incorpora ao pedaço obscuro de coisa trágica.

terça-feira, novembro 06, 2007

Eclipse

Estou sentindo
uma extraordinária vontade
de me comer,
parte por parte.
Beber-me até a última
gota de sangue;
devorar-me até não restar
sequer a sombra de minhas vísceras
- como um astro some
quando há eclipse. serás
o observador de meu desaparecimento.
Uma vontade não de morte,
mas da fração de tempo que há
entre a vida e a morte,
aquele nada
que não é aborto
nem é fecundação
- como quando o mágico do circo
faz sumir a mulher no caixote.
Quero conhecer de perto
este absurdo que é
devolver-se ao próprio ventre,
como se antes nada existisse
e como se o depois fosse um outro mundo,
longe e inatingível.
Estou sentindo
uma extraordinária vontade
de me tornar miúda, tão miúda,
a ponto de ser aquele pedaço
de coisa imperceptível
- nada de mágico, nada de trágico,
apenas a beleza da não-existência.
Devorar-me tanto, devorar-me tão completamente,
a ponto de me tornar
o meu próprio conteúdo gástrico.
E depois, só depois
- já uma outra mulher -,
vomitar-me toda,
em noite de lua-cheia,
uivando aos homens:
"Cheguei"!

domingo, outubro 28, 2007

A Carta

Escrevo-te como quem vomita. Perdoa-me qualquer palavra chula, tudo aqui escrito será involuntário. As horas vão passando e eu muito mal sinto beleza em mim - Perdoa-me também o cheiro podre, não conseguirei escrever cheiroso porque por dentro sou quase cadáver, e por fora, estás vendo, sou carne-viva. Estou seca e ácida, poderei te causar a repulsa e o afastamento, mas serei fiel aos meus instantes de fome e às minhas obscuras sílabas. Direi-te a verdade? Sim, somente ela tem sido amiga, chegando a ameaçar tudo o que não tem, no mínimo, leve coração pulsante. Querido, conhece-me como conheces a ti, observa-me nestas palavras e escuta: preciso te dizer que há mistérios por revelar; eu sou aquele caixote, no porão, que nunca abriste. Abre-me, querido, esta flor murcha que sou quer te falar: segredos.

Minha beleza nunca me deixou forte; não é abrigo, é estar nua na vitrine, exposta à tudo. Minha beleza não é bonita, é dia revertido em escuridão, a beleza de como as coisas são: feias e incompatíveis. Lembra-te: escrevo-te como revelação. O meu rosto não é mais aquele rosto, e o meu corpo anda numa transparência que Deus me acuda: olhando-me se vê minh'alma. As pessoas me olham de relance, pois o sangue em meu espírito não permite que elas pousem seus olhares sobre mim por mais de pouquíssimos segundos. É tudo de uma dor medonha, que eu me vivo e me dano, me vivo e me dano, como em círculos. Estou tonta de tanto girar; sou girassol que nasceu na floresta sem luz. Querido, como és belo perto de mim! Como és belo em tua sanidade! Não espero de ti qualquer resposta; qualquer resposta tua - por mais que negues as minhas verdades para que eu fique tranqüila - será absurdamente maior e mais bonita que minhas palavras, apenas confirmando quem estou te falando (aqui será 'quem estou te falando' e não 'o que estou te falando', pois não falo sobre mim, não falo de mim, simplismente falo eu, como quem se despe muda). Além de tudo, temo mais absurdos. Portanto não respondas, preciso falar sozinha, em tom de confissão, como em cima de um divã - desculpa-me, mas preciso urgentemente te descer à condição de espelho para que me escutes sem te pronunciares e para que, através de ti, eu me (re)conheça toda: serás meu reflexo.

Jamais faria mal à alguém, tu sabes um pouco de mim, mas terminei por fazer um mal tremendo à minha pessoa. Não foi de propósito, juro-te pelos meus restos, foi por descuido, por um fio tênue que separa o fel necessário do fel ordinário. Amei-me tanto, querido, mas me despetalei a tal ponto que agora só me resta a loucura de guerra. Minhas guerras sempre foram internas e isso me custa muito sofrer. Amei-te muito também - foste meu homem, meu amante, meu filho, meu irmão e herói; foste um tudo-junto e abrir mão do teu amor foi como jogar-me à escuridão. Joguei-me para conhecer de perto a agonia de me saber eu. Foste alguém que morou em minha barriga por muito tempo, mas tive de te parir, te libertar - confesso que nesta hora pensei em mim, pois te libertando estaria me libertando também. Agora estou livre de ti, e para me ter por completo é necessário que eu não te tenha, nem pela metade.

As horas parecem voar, tudo passa depressa demais e eu sinto que está chegando o momento da grande notícia. Não, pensando melhor, ainda não, vais ter que esperar mais um pouco, talvez eu esteja mesmo querendo te preparar para o mergulho: o grande mergulho em mim (lembrando-te que eu te escrevo para mim; tornei-me profundamente egoísta depois do choque). Ah, querido, se soubesses o bem que faz se conhecer assim, escreverias algo sobre ti à qualquer pessoa, logo, deixando-te escorrer aos litros. Quando escrevo, ponho-me a rogar por minha própria ajuda; escrever-te talvez esteja sendo uma forma d'eu desistir do que, ultimamente, tenho planejado: horrores. Mas até agora não desisti de nada, sou só uma fruta velha que nunca foi colhida - apodreceu no pé - e pensar nisso, agora, dá-me ânsias de vômito (e como te escrevo como quem vomita, prefiro dizer que pensar nisso, agora, dá-me ânsias de escrita. Que fazer? Vomitar-te).

Deus, estou perdendo a coragem de falar. Aproveitarei este momento, então, para te contar minhas empreitadas: andei sonhando demais. Não falo do sonhar que todos sonham, mas do sonhar na prática, infalível e cruel. Aquele sonhar que está no pegar de objetos, no abrir de bocas, nos goles de gim. O sonhar no presente do indicativo, árido e sertanejo: o fazer como música. Num desses sonhos, confesso-te, arranhei-me toda. Sempre tive o coração vulgar, mais vulgar que o corpo, mas inventei de fazer o corpo ser tão vulgar quanto o coração. Resultado: solidão. Fui bruta uma única vez, por experiência de exacerbação, queria me livrar do que impuseram às mulheres e terminei por me machucar. Acredito que os homens - não adianta - os homens nunca nos entenderão. Até tu, querido, não tentes me entender, os homens são burros como o que, e a força das mulheres se perde quando alguém as entende. Prefiro assim. Pois bem, fui brutalmente ferida por alguém que me quis para ficar em sua estante. Alma como troféu, Deus me livre, nunca mais! Desisto, hoje, de tudo isso, pois não nasci para ser aquilo que eu não sou. Já sou mulher pálida e ofendida demais pela vida, pelas minhas verdades, por mim mesma, não me deixarei ofender mais por ninguém que não eu. Não, nem eu mesma poderei mais me ofender, isso faz parte da grande notícia, embora não a seja por completo. Agora te direi, agora, criei coragem como quem, subitamente, alucina-se:

Adeus. Perdoa-me, mas a grande notícia é este meu adeus infame. Somente este adeus; se esperavas algo maior que um adeus, perdeste teu tempo me lendo. Tornei-me fria assim, toda imensidão fica pequena em minhas mãos, embora coisas miúdas me causem monstruosas cóleras. Adeus, querido, adeus, adeus, adeus. Terminarei de abandonar-me, quero que saibas que sofro de amor por mim - minha primeira metade ama minha segunda metade, e minha segunda metade não ama minha primeira metade -, a culpada de tudo sou eu, não te esqueças disso, eu, eu, eu, como fui a vida pós-choque inteira: sempre eu, sempre egoísta. Tratarei de enfiar uma faca em meu peito, num ato alérgico e egocêntrico, quero chamar atenção de mim. Talvez de Deus. Mas tenho de te dizer adeus logo, antes que eu morra e falte algum adeus. Tenho de te dizer todos em uníssono: ADEUS, ADEUS! Que fiques com os anjos porque vou partir como quem apenas sabe que vai - para onde pouco importa. Preciso ir com todas as minhas forças restantes, preciso morrer. Já que em vida, estive morta, creio que morta, estarei viva. E como passarinho que canta alto e cruel pela manhã, te direi mais uma vez: adeus. Vou-me, amargamente, deixando-te - como alguém que trata só dos seus interesses - a minha trágica verdade.

sábado, outubro 27, 2007

Altar

Não sei se a puta é
inocente ou culpada.
A única coisa que sei
é que a puta,
em sua inexatidão,
é toda mistério profundo
e vítima de suas próprias feras:
a menina que entra na selva,
segue os rugidos que escuta
e morre devorada pelo bicho.
Depois, só depois, descobre que
entrou na selva do seu umbigo,
seguiu os seus próprios rugidos
e morreu devorada pelo bicho que é ela.
Não falo da puta que se vende
para pagar os remédios da mãe doente.
Falo da que se dá de graça,
co'a boca orgulhosa pintada de risos,
mas com uma tristeza amarga no olhar.
Não falo da puta, coitada,
que é produto de um meio.
Falo da puta, coitada,
que já nasceu aberta em flor:
escravinha da própria lascívia,
objetinho do próprio prazer,
a puta doce que se come toda
quando há lua-cheia
- Falo da puta que não crê em Deus,
a puta que não carece Dele,
que sofre e goza num mesmo ritmo,
a menina que destoa o cântico
do coral da igrejinha.
E não da que clama aos céus
melhores condições de vida:
a puta profissional que se torna evangélica.
Não falo da puta que se fantasia de carnaval,
falsa loura, mendiga e difamada;
falo da puta que é o próprio carnaval
e escuta o lobo uivar dentro do seu ouvido,
sozinha
- Falo da puta sozinha,
que prefere não ter ninguém
a ter uma só pessoa. A puta
que cai nas próprias armadilhas.
A puta adolescente
que não conhece o mundo,
a puta criança
que chupa o dedo,
a puta gostosa em sua miséria.
A puta quase invisível,
quase imperceptível,
que é puta por descuido,
que é puta por um fio.
A puta que é santa.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Madalena

Vês aonde cheguei por ti?
Agora entrego-me à brutalidade
de um cão faminto.
O caminho que escolhi
não foi o mesmo que percorri,
e hoje sou tudo o que eu neguei.
Às ruínas d'alma me lançaste,
com essa tua língua áspera me empurraste
para o mais que humano de mim.
Conheci o líquido da verdade
que tanto me ofereceram
e eu nunca bebi.
Igualei-me ao sem escrúpulos,
fundei outra religião poética,
mendiguei um bocado de amor.
Maldita paixão a dos desgarrados,
dos devoradores, dos emancipados,
dos homens sem lei.
Malditas coxas das quase-mulatas sestrosas,
flores da lascívia cheirosa,
santas no altar dos sem-deus.
Eu renasci nos teus precipícios,
menina de curvas e abismos,
Oh, para sempre amada.
Agora que me despi
e desci à condição de réu,
agora que falo a língua dos homens,
espero, qual Cristo,
a crucificação.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Náufraga

Quando somos meninas, comemos as nossas próprias entranhas. O alimento sagrado é a flor do sexo: comestível e carnívora - algo como devorar o que nos devora. Ou melhor: devorar-nos com graça. Oh deus, ser menina é como dar valor à matéria e ganhar um presente da tia falida numa linda embalagem - embrulhado, faz com que nossos olhos saltem e cintilem em rodopios, num balé furtacor, mas desempacotado, faz com que conheçamos a desgraça de se saber a verdade. Já fui menina, eu sei. Ser menina é como nascer da própria morte; uma aventura lúdica que tanto pode ter qualquer coisa de saboroso quanto pode ter qualquer coisa de gosto de jiló.
Despetalar-me talvez tenha sido o acontecimento mais interrogativo de minha vida - era uma pressa em crescer que deus me acuda! Uma vontade de penetrar e me perder em labirintos audaciosos. Tudo que era súbito era bom e bonito, mas eu não podia saltar para fora de mim porque o muro era muito alto. Como se minha mãe, sabendo ter parido alguém cruelmente transgressor, aumentasse a quantidade de grades em volta da casa para que eu jamais pudesse fugir (agora, só agora, eu entendo o quanto é difícil para uma pássara soltar seus passarinhos sabendo que o céu fica escuro quando anoitece e os homens são maus). Fugir para mim era pisar a calçada; transgredir para minha mãe era a burrice de dar a cara à tapa.
Mas deixemos de enrolação e cheguemos ao ponto máximo de minha história; ao clímax de minha existência: Numa tarde quente eu menti para minha mãe (coisas de menina católica por formação mas que, embora batizada, recusou a primeira comunhão, machucando os velhos parentes). Eu menti com medo de ser desmascarada mas, cá pra nós, isso jamais me impediu de voar. Eu menti, eu menti, eu menti, EU MENTI. E mentiria tantas vezes se assim me sentisse consertando alguma parte torta na humanidade.
A casa de praia era grande e bonita, tinha as divisórias de vidro e quadros de Frida Kahlo na parede - Mas que coincidência! Frida Kahlo, o símbolo da revolução sexual feminina, assistindo o meu bater de asas, o meu vôo por cinco minutos e em seguida a minha queda dura e fria. A realidade era o bicho que eu repugnava, era a parte indesejável e cruel do meu despetalar-me. Bebi muito, a ponto d'eu conhecer de perto a coragem que a embriaguez nos dá, aquela coragem de poucos, aquela coragem que não se tem e se tem quando se tem 15 anos. Bendita vodca com guaraná.
Os olhos do rapaz, o dono da casa, tinham um brilho esquisito. Um brilho de quem perdeu alguma coisa, ou mesmo nunca encontrou e vive numa eterna e inválida busca, sempre o mesmo vazio. Parecia que ele tinha mandado buscar um verde igualzinho ao verde do mar que dali a gente via, para pôr nos olhos e me impressionar. E eu pensar "Nossa! que maravilha: ele tem o oceano nos olhos". Deus, que dia extremamente tropical! O calor não tinha mais aonde caber, era muito pouco corpo para tanto calor. O rapaz me olhava feroz, um lobo, e eu percebi o que ele estava querendo na hora em que deitamos na grama e ficamos morenos. O beijo dele que não terminava nunca dizia-me encantadores absurdos. Depois as horas em que ele passava me olhando numa mudez espantosa, e eu me fingindo de cega - sempre achei que os cegos, profetas e poetas enxergam mais e melhor que as outras espécies de gente. Da grama para o andar de cima foi um pulo. Quanto céu tinha aquele rapaz que eu muito pouco conhecia, e quanto poder sobre mim exercia o desconhecido. Mas eu sequer imaginava que não tinha escolha quando, já deitados, ele por cima, deixei cair a minha sôfrega flor do sexo em suas mãos de macho audaz.
Eu habitava novas terras, descobria novos caminhos. Eu ouvia um mundo gritar por socorro e tentava ajudar esse mundo doente e velho, sem saber que minha ajuda era, de todas as ajudas, a mais vã. Foi como correr tanto a ponto de cavar buraco na terra e afundar-me toda. Que desperdício. Eu podia sentir uma multidão de mulheres me habitar, uma multidão de Fridas Kahlo fazer seu trabalho em mim. Mas eu não sabia que doía tanto essa tal de revolução.
Esta cópula não representou coisa alguma que não a vontade de ser guerreira e forte. Uma vontade, apenas, pois para ser guerreira e forte, eu não sabia, precisa-se conhecer o mundo como conhecemos o nosso corpo. Assumo: eu colaborei para o mundo continuar velho e preconceituoso, eu lutei contra e ao mesmo tempo contribuí com a glória masculina quando abri portas e janelas, antes do galo cantar, para a falsa paixão. Hoje apenas sei que foi neste dia ácido, de biquíne azul-turqueza, sob um sol medonho, que eu conheci o lado náufrago de se saber mulher.

terça-feira, outubro 16, 2007

Clandestino

O que habita o profeta
é o mesmo que habita o cego
e o poeta

- Essa capacidade de perceber as coisas
e não conhecê-las.
Essa infinita ligação com o incosciente.
Esse grito mudo.
Ser um expectador no cio,
como estar do lado de fora de dentro das coisas
e penetrar, clandestinamente,
nos labirintos d'alma.
Saber-se devorado pelo olhar de um cão
e não compreender a fome.
Esse subitamente que encarna
e nos faz, primeiramente, ser a notícia,
depois espalhá-la
num jornal que é todo vermelho-sangue.
Essa coragem de apalpar o desconhecido!
E essa intuição,
essa intuição material
que tudo explica
e nada entende.

Eu sou o ser que nada é.
A parte disso,
tudo enxergo, adivinho e sinto.

sexta-feira, outubro 05, 2007

O Dilema

São maliciosas as coisas do mundo.
Esse mundo que abre pernas e seios
para o desconhecido.
Desconheço a parte de mundo
que não tenha um sopro bandido.
Mas ele não tem culpa
- é o coração que já nasceu enfermo.
Quero penetrar em cada astúcia mundana.
O absurdo como música: eis o meu lema!
Essa íntima matemática que cria
mas não resolve o problema.
O mundo é um prato de sopa
- enquanto os homens são quem o come,
eu sou a mosca morta de fome.
E desejo ser exatamente a fração de segundo
em que esse pedaço obtuso de coisa mágica
incorpora-se ao pedaço obscuro de coisa trágica.
Jogar-me nua ao não entendimento - eis o esquema!
E não matar-me e morrer-me por um dilema.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Ser E Não Ser

Tu és o bem que eu não quero;
parte feliz em que eu me desespero.
És fera oculta no jardim de flores doces.
Tu és as florestas em que eu me ardo,
que tanto pode ter qualquer coisa de belo,
quanto pode ter qualquer coisa de um mal amargo.

Tu és a sórdida fraqueza humana;
aquele momento em que resgatamos
as entranhas;
o momento em que pensamos:
- Meu Deus! não há porque haver façanhas:
é tudo livre e grande: oh, vida tamanha!

Tu és o homem desarmado,
que pode ser a virtude e o pecado.
És o dom de existir e só.
E eu me dano e vivo - não sei como -
na angústia de não saber que papel exerço
que não o de ser e não ser amado.

domingo, setembro 30, 2007

Qualquer Coisa

Olhei tua barriga
- uma vontade de caber ali dentro...
Quero ser o teu sofrimento;
desejo ser o teu parto.
Quando pego teu revólver e me mato,
é na esperança de ter teu afago.
Um afago bandido, eu sei,
mas ainda assim um afago
- de braços mornos, passos largos.
Eu quero ser o que te fere e cansa,
mas que não abandonas nunca - esta criança!
que, no fundo, quer teu sorriso
como abrigo
e tua lágrima
como descoberta.
Eu quero ser tua ferida aberta.
Eu quero ser teu filho indo embora,
batendo a porta, desajustando a casa;
morando longe, num lugar cheirando a lixo.
Eu quero ser teu bicho
- teu lobo sedento e pálido.
Mas se não quiseres ser, assim,
meu namorado,
eu posso ser, assim,
irmã abandonada e nua.
Eu faço qualquer coisa
para ter em mim
qualquer coisa de tua.