"Aurélia" - não gosto do meu nome. Quando pronunciado de forma rápida e cruel, ouve-se "a orelha". Às vezes eu quero me machucar um pouquinho e o pronuncio de forma rápida e cruel para mim mesma, baixinho. Muitas vezes sou cruel comigo e com os outros, mas muito mais comigo porque, quando faço uma maldade para alguém, eu me machuco também. Então sou duplamente cruel e por isso pareço um gigante mas não passo de uma mosquinha sobrevoando um prato de sopa.
Não gosto do meu nome porque não gosto da minha orelha. Ela é toda feita de um defeito gravíssimo: um pedaço que falta. Sinto-me uma aleijada, confusa por não saber ao certo se devo me consertar para que os outros me enxerguem bonita, ou se devo extrair a beleza da falha e defecar sobre a cabeça dos homens. Intimamente, temo a situação em que alguém me pergunte o meu nome, eu responda (por descuido) de forma rápida e cruel e, involuntariamente, a pessoa olhe para a minha orelha e perceba que ela não está inteira. A minha orelha também sou eu... eu não estou inteira. E são pouquíssimas as pessoas que conseguem enxergar que o aleijão, às vezes, é justamente o que torna a existência completa. O amor, por exemplo, tem disso.
Quando eu era jovem e comecei a perceber que havia em minha beleza algum poder misterioso com os homens, vivi um tórrido romance com um professor velho. Eu nunca fui a mais bela da escola, aquela que todos os garotos desejavam possuir, porque eu nunca quis ser. Eu possuo um tipo de beleza que pode ou não se manifestar: é questão de escolha. E eu nunca escolhi dar o ar de minha graça àqueles garotos mau-cheirosos e sardentos. Então era bom mesmo que eles gastassem seus púberes suores com Cecília e Amélia... assim, sobrava-me tempo e espaço para escolher um alvo e fincá-lo, certeiramente, com minha flecha juvenil. Escolhi o professor velho também porque a minha maior arma não eram os cabelos soltos ou as bochechas coradas de sol - a minha maior arma era mesmo a juventude.
Vou tentar falar desse romance porque assim eu me fortaleço um pouco. Lembrar é coisa sagrada, encontra-se as raízes das falhas, como quando descobrimos novos detalhes cada vez em que assistimos ao mesmo filme. A minha pequena história com o professor não tem nada de novo. Muito pelo contrário: sem perceber, obedece rigorosamente ao clássico e é coisa estagnada, como qualquer lugar-comum. Por isso eu peço, do fundo de minha alma, que não dês tanta importância a estas linhas, Caro Leitor, mas que fiques inteiramente a par das minhas duras entrelinhas.
Ele, o tal professor, era um homem muito bonito. E era imenso, pois havia dedicado longos anos de sua vida à sofisticação. Um intelectual? De maneira alguma. Mas um homem que sabia exatamente como conduzir a própria vida ao declínio. Mesmo as quedas do professor haviam sido arquitetadas da melhor maneira, elegantes, como a poesia Romântica. Dava-me aulas de teologia, sabia de cor os mandamentos de Deus, os pecados capitais, mas o que sabia fazer com mais propriedade era mesmo pecar. E atolava-se numa fama violenta que sobrevoava os corredores, descia as escadarias, corria o pátio, até ganhar a imensidão do jardim do colégio. "Ele adora menininhas", comentavam todos. Mas, de todos, apenas eu tinha no corpo a prova viva de que as especulações eram mesmo verdadeiras. Eu era a verdade, em carne-viva, do professor - eu, que no primeiro dia de aula, aos quinze anos de idade, já o tinha como presa fácil. Sua boca e suas mãos eram iguaizinhas as do meu pai - requisito crucial para que eu o elegesse amante.
Estou com ânsias de vômito... deve ser a boca, as mãos do professor. Sim, ele era muito bonito. Tinha pouco mais de quarenta anos de idade, barba e cabelos acinzentados, pele boa, dentadura pronta para exercer o seu papel . O que nos uniu? Conscientemente, o fato d'eu, na presença dele, entrar em contato com a parte absurda da vida da qual eu ainda era terminantemente proibida de provar. Enquanto ele, na minha presença, entrava em contato com a vida que ele pensava ter deixado escapar por entre os dedos. Superficialmente, era isso: ele me invejava profundamente por eu ser jovem, e eu o invejava por ele ser velho. E foi assim, sem medo e com uma vontade mútua e avassaladora de ser o outro, que nós dois pecamos, em cima da mesinha à qual ele se sentava, todas as manhãs, para falar à turma de desinteressados a importância daquilo que é sagrado.
Aquele colégio ensolarado passou a ser a mais doce arena para o nosso amargo combate. Amávamos tanto quanto odiávamos um ao outro. Eu era a prostituta, o horror do professor, pois fazia questão de não saber disfarçar mesmo nas horas de aula. Insinuava-me toda de forma a atingí-lo e deixá-lo desconcertantemente furioso. Muito furioso. Ao final de tudo, pegava-me com rispidez pelo braço, levava-me a um canto qualquer e dizia-me que eu era louca. E eu era louca. Quando ele dizia "louca...", eu sentia a tonturinha de quem se reconhece num insulto. Era tudo verdade e a verdadeira loucura sempre me encheu de uma espécie de medo alegre.
"Se descobrirem, ele será expulso do cargo", dizia-me as minhas coleguinhas. "Pois que seja!", eu respondia. Eu queria exercitar a brutalidade em mim, acabar com a vida de um professor qualquer. De um barbudo qualquer. De um homem qualquer. Eu sempre fui moça frágil demais, e ser assim, violenta, era uma deliciosa maneira de me proteger dessa fragilidade que tanto me atormentava. Mas, não sabia eu (claro), era também o que a denunciava. E o professor, homem maduro e vivido, logo percebeu que, se quisesse, poderia me desarmar e me deixar nuazinha. Mas, como já era de se imaginar, ele não quis - e, não só não me desarmava, como ainda me ensinava a apertar o gatilho e matar. Foi sua opção continuar sendo deliciosamente perturbado por mim. Além de tudo, ele carregava nos olhos a doçura romântica de quem já havia passado da fase da maldade. Eu vomitava e ele devorava o meu vômito, faminto por qualquer pedaço de coisa que viesse de dentro de mim.
Parte de mim sabia que o espetáculo era sórdido e de inegável baixeza. Na intimidade, lá dentro do meu quarto, eu até lambuzava-me de alguma culpa. Mas a outra parte de mim necessitava tanto empurrar o homem velho ladeira abaixo, que a culpa era mesmo reservada aos momentos mais íntimos e neles ficava, trancafiada a sete chaves. Ninguém podia enxergar-me culpada - apenas eu. Para o mundo eu havia de ser a pequena vítima que caiu nas armadilhas de um barbudo, e tudo o que eu fazia contra ele estaria dentro do meu direito à defesa. Era como se eu atacasse o professor antes que ele me atacasse... certa de que, do contrário, eu seria vencida.
Onde estaria o professor neste tempo de agora? Penso que nele não caberia jamais o tempo de agora. Ou ele não caberia no tempo de agora. O fato é que esse homenzinho de ingênua audácia é grande ou pequeno demais para caber na sujeira do mundo de hoje. Ou então é a sujeira do mundo de hoje que é grande demais para caber naquele corpo magro e desajeitado do professor. Quando ele ria, apertava os olhinhos, assim como o meu pai. E esses olhinhos eram tão bons quanto cruéis comigo, pois seriam capazes das maiores barbaridades para depois, apertados, deixar escapar algo como "foi por amor".
Depois que o meu pai foi embora de casa, deixando minha mãe, eu e minha irmã mais nova sozinhas, entendi o significado de um homem na vida de uma mulher. Não era ele que fazia falta... pelo menos não a carne dele. Era o contexto que dava corpo ao corpo dele - a exalação do seu cheiro masculino inundando a casa de segurança; o carinho pesado que somente a mão de um homem pode oferecer; a barba suja de café, que nos dava a certeza de que estávamos, de fato, diante de um macho. Meu pai foi embora e eu o perdoo porque, mais de uma vez, na tentativa de desculpar-se, ele apertou os olhinhos e deixou escapar algo como "foi por amor". Se ele não tivesse batido a porta de casa, naquele sábado, cheio de esperança escorrendo pela boca, talvez eu não tivesse amado tão odiosamente o professor; talvez eu nem tivesse enxergado que o aleijão, às vezes, é justamente o que torna a existência completa - e que o amor, por exemplo, tem disso.
Eu nunca falei ao professor sobre suas mãos, sua boca... ele nunca soube que lembrava, vez ou outra, o meu pai. Agora - depois de tudo dito, tudo escrito e tudo lido - somente agora, o que há de mais miserável, mendigo e íntimo dentro de mim sabe que, quando eu pus os olhos no professor e decidi amá-lo tanto e infernizá-lo tão imensamente, eu não era a jovem cheia de malícia e esperteza, com o sexo abrindo-se em flor - e sim, a criança querendo vingar-se do abandono paterno.