domingo, agosto 16, 2009

O Roedor

Você, solto dentro de mim,
feito um bicho.
Você me roendo a cor dos olhos,
sim, e também os mamilos
- o leite azedo que jorra dos mamilos.

Você me roendo a música clássica
que o coração executa.

Você roendo os ruídos da minha festa,
a fogueira na qual me ardo,
a lama nos meus sapatos,
o meu beijo de morte.

Roendo também a minha sorte.

Você me roendo o cetim da roupa,
os dias sangrentos, as noites úmidas,
a triste espera por um milagre,
o pão, a poesia, os homens, o Deus.

A sua língua roendo a minha linguagem,

os dentes afiados do meu cão,
minha sombra, meu pecado, minha redenção,
você roendo você - que também é parte minha.

Feito um bicho que rói
e também ilumina,
você vai me roendo
e vai me iluminando:

tornando cheio o vazio que fica
- dando à minha miséria
a grandeza de se saber miserável.

6 comentários:

Fred Delgado disse...

Ahhh quanta saudade disso daqui... Fazia tempo que eu não te lia. Como é bom!

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Anônimo disse...

Parabéns, belíssimo, não tenho palavras para elogia-´la mais.

Gustavo Brito disse...

- muito bom, amanda.
cada vez melhor.

Thiago Florencio disse...

feito um roedor de ventanias

cheirando o cangote da lua

Anônimo disse...

lindo, linda.

Maria Luíza disse...

Um poema lindo! Susto - bom - aqui ao me deparar com: "A sua língua roendo a minha linguagem".